terça-feira, 10 de março de 2015

Cadeirante Viajando de Trem pela Europa - Parte 2

Elevador para cadeirantes na estação Termini em Roma
Outro trecho que eu sabia que seria de trem era de Roma a Modena. Procurei a melhor operadora, encontrei a Trenitália, que também mostrou estar preparada para atender deficientes. Possuem um programa específico para auxilio a pessoas com mobilidade reduzida chamado Sala Blu. Em Roma, na estação Termini procurei a Sala Blu para resolver tudo e comprar as passagens.  Há várias salas desta espalhadas por estações da Itália, veja aqui a relação. Lá eles programam toda a viagem para você e vendem a passagem específica para trens adaptados. Eu deveria pegar dois trens, um de alta velocidade até Bolonha, e outro comum até Modena. Em cada estação que eu fosse descer, haveria uma equipe me esperando com um elevador para me retirar do trem. Achei tudo muito fácil e organizado, comprei a passagem de ida, para oito da matina, uma viagem que duraria pouco menos de três horas - para cobrir mais de 400 km! Não comprei a passagem de volta porque não sabia que hora acabaria tudo na Ferrari - foi aí que vacilei.
Sala para auxílio a pessoas com deficiência
Chegamos cedo à estação e já estavam me esperando com o elevador. Me colocaram para dentro e, assim como o trem de Londres, este também era primeira classe e tinha banheiro adaptado. A poltrona, porém, era diferente, havia uma para o cadeirante e outra igual ao lado para a acompanhante, muito confortáveis e com espaço para estacionar a cadeira de rodas. Porém não há mesa para estas poltronas. Tratei de passar para outra em frente, com mesinha. Apesar de não estarmos em Londres, o trem também foi pontual. Logo começou a pegar velocidade, e monitores ao longo do vagão informam sobre a velocidade e mostram imagens dos trilhos à frente e mapa demonstrando por onde está passando. A velocidade chega a 250 km/h! Impressionante como a paisagem passa rápido. Houve uma parada em Florença, fiquei com vontade de descer para conhecer a cidade mas tinha que continuar. Chegando em Bologna (fala-se Bolonha), me deu vontade de comer macarrão à bolonhesa, mas o elevador já estava esperando e fui retirado para trocar de trem. O pessoal é bem ligeiro no trabalho, saíram me empurrando por dentro da estação (que é enorme) pegando elevadores de carga e comuns, corredores compridos e esquinas tortuosas. Enfim saímos no hall da estação e fui levado direto à Sala Blu. Ficamos esperando cinco minutinhos e logo me pegaram novamente, para levar ao outro trem.
Poltronas para deficiente e acompanhante
Vagão de primeira classe da Trenitalia
O trem que ia para Modena era bem mais modesto que o anterior, e mais lento também, mas ainda assim deve chegar a uns 150 km/h. A viagem foi rápida e o elevador da estação de Modena estava a postos para mim. Engraçado é que era manual, e o operador rodou uma manivela rapidamente para que eu saísse a tempo. Fui passear no museu da Ferrari de lá, fui a Maranello no outro museu, e voltei a Modena por volta das seis e meia da tarde, debaixo de chuva. Me dirigi ao guichê para comprar minha passagem de volta para Roma. Apesar de haver somente três guichês e uma grande fila, logo que me aproximei fui direcionado ao próximo guichê livre. Chegando lá, me atendeu um senhor que não falava inglês. Felizmente estudei um pouco italiano e para auxiliar tinha um aplicativo instalado no celular com expressões e frases utilizadas em viagens. Pedi então a passagem mas o senhor me disse que não seria possível. Oi? Como não? Porque não? Perguntei um pouco aflito. Ele me explicou que não havia mais trens adaptados naquele dia. Além disso, eu deveria ligar para um número com um dia de antecedência para programar os elevadores.
Monitor que mostra a velocidade do trem
Comecei a gelar. Meu vôo para Madri era no dia seguinte às nove e meia da manhã, e eu precisava chegar ao aeroporto duas horas antes. E no outro dia iria embora para o Brasil. Para completar, naquela cidade pequena, dificilmente encontraria um hotel adaptado. Tentei explicar isso tudo para o senhor, e que eu precisava ir para Roma naquele dia, mas ele foi inflexível. Disse que não tinha o que fazer e que eu precisava ligar para aquele número. Fui tentar então. A estação é pequena e logo encontramos orelhões, em um bequinho meio escuro. O número era tipo 0800, pelo menos. Tentei ligar uma vez, chegou naquela gravação dizendo "ligue novamente mais tarde, todos os nossos atendentes estão ocupados". Tentei novamente, caiu de novo na gravação. Mais uma vez, mesma coisa. Lá pela décima vez, cheguei à conclusão que não é só no Brasil que ligações gratuitas não funcionam.
Resolvi voltar ao senhor do guichê, disse que não consegui falar e que precisava ir para Roma de qualquer jeito. Ele continuava falando que não tinha jeito, que eu tinha que ligar para aquele número para programar os elevadores e talvez conseguisse pegar um trem às seis da manhã. Seis da manhã? No way! Ah, esqueci que ele não falava inglês. Como ele estava começando a ficar nervoso, sai de lá e comecei a me desesperar. A Gi, por incrível que pareça, estava calma e rindo. Geralmente é o contrário... Falei pra ela: já te coloquei em muita fria, mas essa bateu o recorde. Estamos presos no interior da Itália, num lugar que ninguém nos entende direito, escurecendo e chovendo, sem hotel nem rumo. Aí ela teve uma ideia, tentar conversar com outro atendente, mais novo, do guichê ao lado. Poderia ser mais receptivo... Fui lá falar com ele então, que também não falava inglês. Na verdade, percebi que dificilmente encontraria alguém que falasse inglês naquela estação. Expliquei para ele em italiano more or less e ele se sensibilizou com meu caso. Disse que conseguia me colocar em um trem comum, sem vagão adaptado, mas eu teria que ligar naquele número. Mesmo eu dizendo que não tinha conseguido, a única solução era essa, pois naquele número eles chamariam uma pessoa para operar o elevador de Modena e programariam os outros elevadores em Bolonha e Roma.
Voltamos para o bequinho para tentar ligar novamente, comecei a tentar, uma, duas, na terceira vez tocou! Atendeu um cara falando em italiano. Perguntei se ele falava inglês e ele disse que não. Perguntei se alguém lá falava inglês, e ele ficou de olhar. Logo atendeu uma mulher falando um inglês bem more or less também. Mas pelo menos falava... Expliquei para ela minha situação e disse que precisava ir para Roma naquele dia. Ela me disse que era impossível, que não tinha ninguém para operar o elevador, que não tinha jeito. Falei quase implorando para ela tentar dar um jeito, pois eu perderia o voo para Madri, ia ferrar minha vida. Ela saiu e eu ouvi ela conversando um tanto com o povo lá, e de repente ela volta. Disse que ia conseguir me ajudar, e eu deveria voltar aos guichês e procurar uma pessoa de verde. Ele ou ela iria me colocar para dentro do trem. Eu não acreditei no que ela disse. E perguntei: quer que eu desligue um telefonema super difícil de conseguir, vá ao guichê e procure uma pessoa de verde que você nem sabe se é homem ou mulher? Ela disse sim. Bom, fazer o que né.
Desliguei e fomos aos guichês, chegando lá não tinha ninguém de verde, perguntei aos atendentes e eles não sabiam de ninguém de verde. Ferrou. Falei pra Gi rodar pela estação e pegar qualquer pessoa vestindo verde, nem que fosse uma pulseira, e puxasse até onde eu estava. Ela saiu correndo, e de repente viu uma mulher com um jaleco verde e um crachá falando ao celular. Ela segurou no braço dela e disse "você que vai ajudar o cadeirante?". A mulher não entendeu nada mas percebeu pelo desespero que tinha a ver com meu caso. Trouxe a mulher até mim e ela já chegou se desculpando por não falar inglês! Tudo bem, eu disse, desde que consiga me colocar no trem. Perguntei também que hora o trem passava, ela olhou para o painel e falou: é agora! Saímos correndo pela estação, ela na frente e nós atrás. Tinha que pegar um elevador, passar por baixo da estação e pegar outro elevador para sair no meio. Depois de demorar o elevador, saiu um senhor rechonchudo, e a nossa ajudante falou "é por isso que ele está gordo, fica pegando elevador ao invés de usar a escada". A essa altura eu já estava rindo, apesar do sufoco. Saímos no meio da estação e ela saiu correndo, nós dois atrás. Ela sumiu de vista mas falei pra Gi não preocupar, não tinha pra onde fugir. Chegando ao final, vi a Paula - nossa ajudante - pegar o elevador ao mesmo tempo que o trem chegava ao meu lado. Ela fez sinal para o maquinista esperar, rodou a manivela de elevador, eu subi, ela girou o troço todo de novo e me colocou para dentro. Ufa! Aí foi só alegria, agradeci ela um monte e fomos embora. Trocamos de trem em Bolonha e chegamos a Roma já tarde, com fome, cansados, mas aliviados! Fica a dica: em qualquer viagem de trem pela Itália, programe tudo pela Sala Blu antes de sair!

5 comentários:

  1. KKKKKK....esse é o Sam.....ainda bem que a Gi se diverte com os rolos que ele arruma!!!

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  2. Gostaria de saber como vocês fazem para levar as malas! A Gi, você na cadeira e as malas? Alguém ajuda a por no trem, tirar do trem, por no taxi... Estou querendo ir com meu pai que e cadeirante. Mas fico pensando como vou levar ele e a mala??????? Poderia me dar umas dicas? Abordando este aspecto,digo, locomover a cadeira e a mala, ao longo de suas viajens na Europa? Tem algum local que vc se dirigiu na estação de Paris e Londres para obter ajuda? E depois ao sair da estação, como faz para ir até o transporte de cadeira, só vocês dois, e as malas?

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    1. Oi Marluci,levamos três malas, uma bem grande, com rodinhas, uma menor e uma conversível em mochila. A menor eu levava no colo, a tipo mochila eu levava pendurada atrás da cadeira, e a grande com rodinhas a Gi puxava. Foi bem tranquilo, até quando fazíamos compras levávamos as sacolas penduradas na cadeira. Como costumo dizer, colo de cadeirante é que nem carrinho de mão, dá para levar um monte de coisa! rsrs

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    2. No seu caso você tem que empurrar seu pai né? Não tinha pensado nisso. Eu sempre toco a cadeira sozinho, por isso não houve dificuldade. No caso de você empurrar seu pai, a mala conversível em mochila é o ideal. Tenho uma grande, as alças saem de trás e dá para carregar. Quando viajo sozinho sempre levo ela.

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