sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Multi Lift

Uma operação que é sempre delicada para um cadeirante é a transferência. Mesmo quem tem os membros superiores preservados e fortes, há uma série de cuidados a serem tomados. Por experiência própria, foi devido a transferências mal feitas que abriu a primeira escara em mim, e até hoje estou tentando fechá-la, principalmente porque as transferências ainda demandam atenção e nem sempre tem como evitar contato com objetos ou a própria cadeira.
Mas e quem tem pouca ou nenhuma força nos braços? E mesmo quem tem alguma força, na maioria das vezes não consegue manter-se durante uma transferência e acaba sofrendo um acidente no caminho.
Para este público a Cavenaghi tem o Multi Lift. É um guinho portátil que pode ser usado em vários ambientes, basta instalar as bases. Concebido inicialmente para as transferências para dentro de veículos de pequeno porte, ele já é usado em residências nos quartos, banheiros e onde mais for necessária uma transferência segura e sem esforço. Basta instalar as bases nos locais necessários e montar o Multi Lift na hora da transferência, uma operação simples e fácil.
A grande vantagem do mecanismo é ser leve e portátil, pode ser guardado em uma maleta que facilita seu transporte e é instalado com facilidade nas diversas bases possíveis. Funciona com eletricidade e pode ser ligado ao acendedor de cigarros do carro ou na tomada com um transformador. É a solução para quem tem dificuldade de trasferências. Em Belo Horizonte, maiores informações na oficina Pinguim, pelo tel. (31) 3344-5800.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Importância do ortostatismo


Um dos maiores benefícios que eu senti no hospital Sarah foi voltar a ficar de pé, depois de seis meses sentado e deitado. Isto foi possível devido ao ortostatismo, palavrinha diferente que significa "posição de pé". Lá há um aparelho que "guincha" literalmente o lesado e o coloca de pé. É amarrada uma tira nas costas e quadril do paciente, no corpo do aparelho há um local onde o joelho é apoiado e fixado, e por um comando eletrônico o paciente é guinchado até a posição de pé. Existem também camas que amarram o paciente e se elevam até ficar de pé.
A primeira vez que fiquei de pé foi uma sensação deliciosa depois de tanto tempo sentado, ver novamente as pessoas no mesmo nível (no meu caso, um nível acima) e sentir o corpo apoiado sobre as pernas e pés. Além de ser bom pra mente tem importância clínica fundamental para o lesado medular.
O ortostatismo é importante para prevenir osteoporose por desuso, já que os ossos das pernas não tem mais a função de sustentar o corpo e não se movimentam com a frequência usual. A osteoporoso pode causar perda óssea, o que pode ser um problema futuramente caso recupere funções motoras dos membros inferiores.
Melhora tembém as funções urinárias e intestinais, prevenindo infecções urinárias e fecalomas (endurecimento de fezes). Contribui também para redução da espasticidade. E ainda torna possível fazer alguns exercícios de fisioterapia impossíveis em outras posições, melhorando assim o controle de tronco. Traz benefícios também para a circulação.
Mas não é necessário um aparelho para colocar o lesado medular de pé. Ainda no Sarah foram feitas talas para minhas pernas, sob medida, o que me possibilita ficar de pé em qualquer ambiente que tenha um lugar firme para puxar com as mãos e me segurar. É importante ter sempre alguém por perto no caso de algum desequilíbrio. Isto é fundamental porque nos primeiros momentos em que se fica de pé são comuns tonteiras fortes, e é necessário sentar novamente, esperar um pouco e voltar a subir.
Fisioterapeutas recomendam ficar de pé pelo menos cinco vezes por semana por uma hora. Porém, antes de ficar de pé por conta própria, o lesado medular deve fazer uma série de exames para saber se não comprometerá ainda mais sua saúde. Conheci algumas pessoas que não podiam fazer o ortostatismo por problemas no fêmur ou no quadril. Só mesmo com o aval de médicos e fisioterapeutas o lesado medular pode iniciar sessões de ortostatismo. E tornar este um hábito frequente.

sábado, 22 de agosto de 2009

Escara: todo cuidado é pouco

Três anos sem escaras, sempre com muito cuidado com as mudanças de decúbito, e um machucado devido a uma raspada na trava da porta do carro se transformou na minha primeira escara. Fui ao hospital, iniciei acompanhamento médico e troca de curativo todo dia, até que numa das trocas de curativo o esparadrapo, que foi reforçado com Benjoin, arrancou parte da pele, bem superficial.

Mesmo eu tendo muito cuidado e procurando ficar sentado o mínimo possível, o machucado do esparadrapo virou a segunda escara. Como esta era mais embaixo, evoluiu rápido e cresceu, demandando ainda mais cuidado com a posição. Deixei de ir a fisioterapia, deixei de sair de casa quase uma semana, permanecendo a maior parte do tempo de bruços, e consegui que as escaras se fechassem bastante, sumindo a parte necrosada e iniciando a cicatrização completa, até que a de cima era só casca e já estava sumindo.
Mas eis que na quarta feira passada, saindo da fisioterapia, na hora da transferência para o carro, o vilão da primeira escara entrou em ação de novo: deu um espasmo nas pernas e ralei as costas na trava do carro, onde a porta se encaixa, mais uma vez. Aí junta o movimento, meu peso e a velocidade em que eu entrava. Pelo menos não foi fundo, mas arrancou um grande área de pele e sangrou bastante. E agora, mais uma luta para fechar de novo e não virar escara. Estou colocando curativo e pomada de 12 em 12 horas e permancendo de bruços.

O problema comigo é que minhas pernas são muito compridas e o espaço para entrar no carro é sempre insuficiente. Quando tem alguém comigo já aprendi a evitar, é só a pessoa colocar a mão na trava da porta que evita machucar, mas quando estou sozinho não tem jeito. O negócio é continuar tomando cuidado, cada vez mais. O problema maior é que quanto mais machucado, mais a pele fica sensível e passível de voltar a machucar. No fim das contas, evitar as escaras é fundamental para continuidade da qualidade de vida, e muitas vezes, continuidade da própria vida.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Táxi acessível chegando a Minas

Hoje de manhã estive na oficina Pinguim, representante da Cavenaghi em Belo Horizonte, e responsável pela instalação de diversos sitemas adaptados para deficientes. Participei de uma matéria gravada para a Rede Record, que deve exibir amanhã à noite, no programa MG Record, às 19:15, sobre as dificuldades que os cadeirantes enfrentam em Belo Horizonte e a iniciativa do Táxi Acessível, que está para ser implantado aqui na cidade. Eu já havia escrito sobre este táxi, que já roda em São Paulo e no Rio de Janeiro, neste post, e fui conhecê-lo de perto.
O sistema é extremamente seguro, há diversos itens para garantir a segurança do cadeirante tanto durante a elevação pela plataforma quanto durante a viagem. Antes mesmo de subir na plataforma é anexado pelo operador um apoio de cabeça à cadeira de rodas, para evitar o efeito chicote em caso de colisão ou freiada brusca, conforme visto na foto abaixo. O equipamento é adaptável a qualquer cadeira de rodas.
Na plataforma de elevação há proteções na frente e atrás e ainda hastes para que o cadeirante se segure. A plataforma é operada por dois botões, para evitar o fechamento completo acidental. No primeiro estágio ela se eleva à altura do assoalho e trava para que a cadeira seja conduzida ao interior do veículo e no estágio seguinte, operado por outro comando, ela fecha completamente.
Dentro do veículo há trilhos que servem de suporte para as travas que seguram a cadeira, que são iguais às usadas pelas empresas de aviação para prender as cargas nos aviões, portanto muito seguras e resistentes. São quatro pontos de apoio que se ligam por ganchos à estrutura da cadeira de rodas e ainda podem ser apertados e travados.
Para completar a segurança há um cinto de três pontos totalmente regulável e adaptável, deixando o cadeirante completamente seguro e estável. O teto do veículo também é mais elevado possibilitando até uma pessoa mais alta, como eu, caber confortavelmente sem se preocupar em bater a cabeça no teto. E ainda há disponível mais um assento ao lado da cadeira de rodas para um acompanhante. É um serviço fantástico, extremamente avançado com toda a segurança e comodidade que um cadeirante precisa para se locomover sem preocupações. A autorização foi dada pelo governo, resta saber se alguém vai "comprar" a idéia e investir neste serviço inclusivo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Manobras radicais com cadeira de rodas.


É difícil opinar neste tipo de "atividade", pois eu sempre curti esportes radicais, sempre adorei adrenalina, nunca tive muito medo de arriscar, mas foi essa falta de medo que me deixou paraplégico. Portanto, os argumentos que eu sempre usei favoráveis aos esportes radicais, como a emoção, a sensação de superação de limites e a descarga de adrenalina no sangue, que provoca sensação de êxtase e felicidade, soam um pouco fúteis perto da consequência que a falta de responsabilidade me causou. Mas aí é que ainda encontro argumento para defender esportes radicais e emoções: feito com responsabilidade e segurança, a probabilidade de ocorrer acidentes é minimizada.
Mas ainda assim me assusto um pouco vendo esses meninos praticando "Hard Core Sitting" - Extreme Wheelchair, ou em bom português "manobras radicais em cadeira de rodas". Não que eles não façam com segurança, usam capacete e roupas de manga comprida, mas é que uma pessoa que já sofreu um acidente (ou levou uma bala) e ainda se arrisca mais, sabendo do quanto pode piorar sua situação, acho um pouco de irresponsabilidade. Mesmo porque a pessoa está amarrada na cadeira de rodas, em um tombo a chance da cadeira virar por cima e machucar ainda mais o indivíduo é grande. De qualquer forma eu não condeno, se eu tivesse ficado paraplégico mais novo não duvido que eu buscasse este tipo de aventura. Mas tem que ter muita, muita responsabilidade pra não ultrapassar os limites e provocar mais uma desgraça na vida já sofrida de um cadeirante. E também tem a questão da inclusão, para esses garotos é uma forma de se integrar e participar das atividades normais desta faixa etária.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Nem hospital respeita cadeirante

Todo mundo conheçe o ditado "quanto mais eu rezo, mais asombração aparece". A cada dificuldade para um cadeirante que encontro nas ruas da cidade me lembro deste ditado. E o pior é que cada desrespeito é mais absurdo que o outro. A bola da vez é o Hospital Belo Horizonte, um dos mais conceituados e tradicionais da cidade. Já tem um tempo que eu gostaria de externar minha indignação, mas semana passada foi a gota d'água.
O problema é estacionamento para deficiente físico. O hospital conta com um estacionamento amplo, com vagas específicas para cadeirantes, mas que é terceirizado. E os preços são absurdos. Precisei trocar um curativo nas costas e fui ao hospital, entrei no estacionamento e no lugar da vaga de deficiente tinha um carro de não deficiente. Detalhe, o lugar das vagas de deficiente é o único plano do estacionamento, o resto é todo em declive. O manobrista procurou alguém que tivesse parado há pouco tempo e conseguiu liberar outra vaga no plano, mas ao lado de uma corrente. Não aguento isso, as pessoas acham que vaga para deficiente é só um lugar marcado, não entendem que é preciso um espaço maior para abrir a porta completamente e encostar a cadeira de rodas. Mas mesmo quando a vaga para deficiente está liberada há outro transtorno. Uma delas, a que geralmente está desocupada, fica ao lado de um poste de metal. Então tenho que parar o carro torto para conseguir chegar com uma cadeira de rodas perto. E sempre o tal poste atrapalha, se não for ninguém ajudar não consigo sair sozinho não. Naquela ocasião, consegui sair do carro na marra e subi para fazer meu curativo.
Demorei uma hora e meia, voltei pro carro e sai do estacionamento. Valor? R$ 12,50. Um absurdo total. E não foi o mais caro que paguei, em uma emegência certa vez fiquei umas quatro horas e paguei 30 reais. Agora me explica: se as vagas para deficientes físicos na cidade são gratuitas para quem tem carro credenciado, porque em estacionamento fechado são pagas? Ainda mais em um hospital? Difícil entender. Difícil aceitar.
Ah, mas há as vagas para deficiente próximas ao hospital, não? Aí é que está o maior absurdo. Na busca de não ser tão lesado no bolso, quem procura uma vaga de deficiente próximo ao Hospital Belo Horizonte encontra bem ao lado da portaria principal, em uma rua paralela.
Só que a vaga fica depois de um ponto de taxi e na descida. E a rua ainda é de pedra fincada. Parece brincadeira, mas não é, as fotos estão aí para provar. É a pior vaga para deficiente que já vi na vida. Em um morro e ainda de pedra fincada. Incrível como o gênio que definiu o lugar da vaga não imaginou a dificuldade que é tocar uma cadeira de rodas em chão de pedra fincada. E na subida. Sem contar no risco que é a cadeira descer enquanto o deficiente faz a transferência, já que mesmo com os freios puxados, o peso e a posição não são suficientes. Se não houvesse ninguém para segurar minha cadeira, eu teria caido.
A solução que encontrei foi parar o carro em frente a uma padaria do outro lado da rua da entrada de emergência do hospital, em lugar proibido de estacionar, mas o único mais próximo de alguma entrada. Corro o risco de tomar multa quando vou lá, mas é o jeito para não pagar caro.
Mas como sempre não fico só no bla bla bla. Já mandei reclamação para o Hospital e para a BH Trans, que cuida do trânsito em BH. Espero sinceramente que alguma providência seja tomada neste caso.

Sobre as calçadas

É muito comum as pessoas reclamarem das calçadas e nem precisa estar em cadeira de rodas para sofrer com a péssima qualidade deste espaço público nas cidades brasileiras. Segundo a atual legislação, o proprietário do terreno ou imóvel é o responsável pela construção e manutenção da sua respectiva calçada. Algumas pessoas querem melhorá-las mas não tem informações sobre como torná-las regulares, seguras e bem cuidadas. Por isso a Prefeitura de São Paulo lançou o programa Passeio Livre, que visa conscientizar e sensibilizar a população sobre a importância de construir, recuperar e manter as calçadas da cidade em bom estado de conservação.
A cartilha do programa pode ser acessada em: http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/passeiolivre/
Na foto acima, vemos o padrão arquitetônico adotado pela Prefeitura em pavimento de blocos intertravados, com 3 faixas: faixa de serviço (larg. mín. de 0,75m - serve para locar árvores, postes, canteiros, etc sem atrapalhar a faixa livre), faixa livre (larg. mín. 1,20m e altura livre de 2,10m - serve para o tráfego sem barreiras de pedestres) e faixa de acesso (sem larg. min. - serve para acessar o imóvel e pode abrigar placas ou vasos q não interfiram no acesso). Cada faixa tem sua função e o padrão de cores ajuda na identificação de cada uma.

Arq. Bruno R. Fernandes

Desenho Universal e Norma de Acessibilidade NBR9050

Já comentei aqui sobre o curso sobre acessibilidade que meu irmão dará em São Paulo e algumas pessoas me pediram o folder do curso, que disponibilizo no link abaixo:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...