Em uma situação sem precedentes no mundo, nos vimos obrigados a ficar em casa. Impedidos de trabalhar, levar os filhos na escola, viajar, passear, e até mesmo para fazer compras está sendo recomendado utilizar a Internet. A sugestão é ficar em casa o tempo todo, a família toda. E sem visitar nem os parentes.
Em uma época em que estávamos muito ligados às tecnologias, principalmente através dos smartphones, em que a maioria das conversas se dá pela tela do celular, somos obrigados a conviver com os filhos 24 horas por dia.
Fazer todas as refeições todos os dias juntos é muito bom!
Mas será que isso é tão ruim assim? Será que não podemos fazer do limão uma limonada? Esse é o pensamento dos otimistas, grupo no qual sempre me inclui.
Aproveitar cada momento em família
Ao conviver todo dia com os filhos, percebendo a felicidade deles ao ter sempre ao lado o papai e a mamãe, a gente se lembra dessa época deliciosa da vida em que as maiores preocupações eram as próximas brincadeiras e estar junto aos pais. Não importa o lugar nem a condição, estar com o pai e a mãe é o que aquece o coração de uma criança.
Jogar videogame ajuda a passar o tempo
Perceber isto traz uma ponta de tristeza, pois os mais isolados nessa crise de saúde são justamente nossos pais, em sua maioria idosos. Somos privados da convivência com eles e temos que os privar da convivência com nossos filhos. Mas é para o bem deles, por mais que doa.
Ajudar em casa é sempre uma boa lição
E como encontrar o lado bom nessa situação? Fazendo dessa convivência a melhor possível. Aproveitando para passar tempo de qualidade com nossos filhos. Comer todos os dias com eles é uma oportunidade para acompanhar e melhorar sua alimentação. Escovar os dentes deles é bom para incentivar a correta higiene pessoal. Devemos também brincar, curtir, ver filmes, jogar, mas principalmente, ensinar boas práticas e lições aos nossos pequenos. Ajudar em casa, arrumar o quarto, estudar, escovar bem os dentes, manter o corpo em forma (apesar do espaço pequeno dá para se virar) e amar o próximo são apenas algumas coisas boas que podemos passar para eles.
Sem contar que devido aos cuidados necessários para evitar o vírus temos um bom argumento para ensinar boas práticas de higiene como lavar sempre as mãos e evitar contato com o rosto.
Graças às video aulas, eles podem praticar o Taekwondo
No futuro, certamente se lembrarão desses dias com carinho e saudade. Sei que não é fácil manter todos os dias em harmonia e paz, afinal crianças precisam de espaço e gostam de novidades, mas com criatividade e carinho podemos ser os heróis que eles tanto acreditam que somos. E assim que tudo passar, seremos pessoas melhores e mais fortes!
A paternidade não é tarefa fácil. Ser pai é uma grande responsabilidade e um grande desafio. Não é só fazer e deixar a mãe tomar conta; colocar uma criança no mundo e formar um ser humano decente está cada dia mais complicado. É preciso acompanhar, aconselhar, ensinar e, sobretudo, amar. Mas nos primeiros anos, o que faz a alegria destes pequenos é outro verbo: brincar. E quando o pai tem alguma limitação é preciso se desdobrar para acompanhar. A solução é apelar para o verbo número um do cadeirante moderno, adaptar. Sim, é possível adaptar quase tudo para acompanhar o crescimento destas miniaturas de gente.
Alterei o armário deles para virar um trocador adaptado
A primeira adaptação que fiz foi no quarto deles, onde havia um armário com um vão para televisão, retirei a parte de baixo e fiz um trocador. Assim posso entrar com a cadeira embaixo do trocador e ainda tenho duas prateleiras embaixo onde ficam as fraldas, pomadas, lenços umedecidos. E para conseguir pegá-los no berço sem fazer muito esforço, comprei berços com lateral deslizante, assim abaixo a lateral e os alcanço sem dificuldade.
Pra eles é apenas um carrinho grande que leva o papai
O que mais me surpreendeu nestes quase quatro anos com os pequerruchos foi como criança gosta de cadeira de rodas. Para elas é apenas um carrinho em que o pai anda e pode servir como brinquedo! Adoram passar por baixo, sentar nela e serem girados e empurrados. Sempre que eu passo para o sofá e um deles sobe na cadeira pego ela por trás e fico girando, empurrando e empinando! Eles se divertem. E é impressionante como gostam de rodar em pé no apoio de pés da cadeira, entre minhas pernas. Não podem me ver saindo do quarto que já correm para o apoio de pés e voltam rodando para a sala. Ou isso, ou no colo. Ou um no colo e o outro no apoio de pés!
Poder almoçar e lanchar todos os dias com os meus filhos não tem preço
Felizmente posso ficar em casa para acompanhar o crescimento e cuidar deles. Faço questão de fazer as refeições com eles, escovar os dentes deles todo dia, e brincar muito com os dois, nos divertimos muito juntos. E também dou bronca, coloco de castigo e oriento quando fazem coisa errada. Ou seja, sou um pai comum, só que uso uma cadeira para me locomover! Com a ajuda de alguns acessórios, consigo acompanhar mais eles, seja com o triciclo elétrico, a handbike ou o Freewheel, podemos pedalar juntos, rodar pela calçada e posso até rodar ao lado deles em terreno acidentado.
Quando a dor aperta, fazemos a festa na cama mesmo!
Hoje em dia, o que precisei adaptar foi a forma de brincar e cuidar sobre uma cadeira. Ou sobre uma cama, pois quando as dores aumentam, preciso ficar mais tempo na cama. E eles vem ficar comigo, se eu estive um pouco melhor, brinco mais, se estou pior, eles entendem e ficam ao meu lado mais quietinhos. Ou trazem algum livro para eu ler para eles. Quando brincamos na cama, o que mais gostam é que eu os levante no alto, ou então brinco de puxar eles para perto e eles tentam correr! Isto gera muitas gargalhadas!!
Não deixo de acompanhá-los independente da situação!
Tive que aprender a vestí-los de forma adaptada. Uma das formas que uso é me deitar sobre as pernas para colocar a parte de baixo, este jeito é bom que eles se apoiam em mim. Para colocar a aparte de cima eu apoio os cotovelos sobre as minhas pernas. Outra forma que desenvolvi foi usar apenas uma mão para vestir os meninos, já que a outra mão muitas vezes precisa ficar apoiada para garantir meu equilíbrio.
É bom demais ser pai, com ou sem rodas!
No fim das contas, a deficiência não impede exercer a paternidade em sua plenitude. Apoio, cuidado, carinho e amor não precisam de adaptação! E a retribuição é imediata!
Quem ilustra este post é minha linda filha Anne. Ainda não tive essa conversa com ela, mas será bem mais fácil
Semana passada, fui deixar meus filhos na escolinha e resolvi descer do carro e acompanhá-los até a porta da sala, já que era a primeira semana de aula deles. Chegando lá, a babá deles tirou minha cadeira, desci e entrei no pátio da escola. Várias crianças me cercaram, muitos deles nunca tinham visto um cadeirante ou uma cadeira de rodas. Alguns pais puxaram seus filhos ou seguraram eles quando quiseram vir até mim, o que achei uma bobagem, não tem porque tolher a curiosidade dos filhos. Além disso, eu não mordo!
Algumas crianças ficaram no "que legal" outros só olhavam curiosos, até que uma menina de uns quatro anos me olhou nos olhos e perguntou:
- Porque você está nesse carrinho?
Achei de uma linda inocência e uma coragem enorme ela vir me perguntar, enquanto os amiguinhos só olhavam. Respondi:
- Isso que eu estou chama cadeira de rodas e estou nela porque tenho um dodói nas pernas e não consigo ficar de pé nem andar. Aí uso ela para andar.
Ela ficou pensativa, olhando pra mim, olhando pra cadeira. Aí perguntou:
- Mas você vai sarar?
Essa pergunta me pegou e fiquei pensando na resposta. Me sai com essa:
- Não vou sarar não, mas eu não ligo de andar nela, acho até legal.
Mais alguns segundos me olhando, e mais uma pergunta da minha curiosa amiguinha:
- Nem se sua mãe te der um beijinho?
Tive vontade de rir, mas fui pego novamente de surpresa, sem saber bem o que falar. Nesse momento a professora chamou e ela saiu correndo. No fundo pensei "ufa" pois não tinha decidido ainda o que responder. Fiquei entre contar a verdade, e estragar a crença dela que tudo que mamãe beija sara, o que ajuda ela a enfrentar o sofrimento, ou falar algo como "vou pedir para ela da próxima vez que a encontrar" mas aí ela ia achar que eu sou triste porque não tenho minha mamãe para beijar meus dodóis. Acho que o melhor seria falar a verdade, explicando que meu dodói é muito grande, que eu machuquei porque caí da moto, então não ia sarar com o beijinho da mamãe. Seria ótimo, ganharia outra adepta ao grupo anti-moto.
Não sou dono da verdade, cada pessoa pode achar uma forma diferente de explicar esta situação, mas sacho que no geral me saí bem. Queria ter mais tempo para responder a ela, e explicar que é normal usar a cadeira, muita gente usa, que é perfeitamente possível ser feliz assim, mas foi o que deu para fazer frente a essas questões tão complexas num tempo tão curto. Quem sabe da próxima vez?
Como foi para você este ano que está acabando? Fez tudo que
planejou? Realizou seus sonhos? Está mais feliz agora do que no início do ano?
É isso que a gente sempre espera ao entrar em um ano novo. Que seja um ano bom
em todos os sentidos. Que realizemos os planos profissionais e pessoais.
Emagrecer, ficar em forma, conseguir uma promoção, um novo emprego, conquistar
alguém, comprar um carro novo, uma casa nova, ter um filho, passar mais tempo
com os filhos, passar mais tempo com os pais, ser mais paciente, bondoso e
amável. Claro que não dá para fazer tudo em um único ano, por isso promessas de
ano novo raramente são cumpridas.
Com a maturidade a gente percebe isto, portanto a única promessa que faço ao
entrar em um novo ano é fazer o possível para que seja melhor que o anterior.
Este ano para mim foi um ano de extremos. Por um lado, aproveitei muito
acompanhando o crescimento dos meus filhos. Realizei um sonho de conhecer neve
e esquiar. Fiz muitos vídeos bons para meu canal do YouTube.
Por outro lado foi o ano com mais dores crônicas da minha vida. Tudo de bom que
fiz foi na raça, aguentando estas dores. Por isso não consegui fazer tudo que
quis. Fiquei muito tempo de cama, muito tempo em hospital, muito tempo
desanimado e até triste, coisa que nunca havia experimentado. E para tentar
melhorar este quadro, ao final do ano, dia 5 deste mês, fiz mais uma cirurgia
para tentar diminuir esta dor, implantando mais um eletrodo do
neuroestimulador, desta vez acima da lesão, no pescoço.
A cirurgia deu certo, porém ainda não foi eficiente no controle da dor. Há
ainda dezenas de programações para tentar acertar na mosca, e pegar bem na dor. Ainda acho que o neuro estimulador será
Entro no ano com esta esperança, de que consiga diminuir a dor e voltar a
colocar meus planos em ação. Voltar a trabalhar, votar a escrever mais no blog,
fazer mais vídeos, e ajudar mais gente. É isso que me realiza. Mas só nos
tempos vagos, pois minha felicidade é minha família. Com ela e com menos dor,
pretendo fazer este ano melhor que o atual. É o que desejo a todos vocês, que
tenham um ano melhor que o que está acabando!
Já contei aqui como foi o processo para termos nossos filhos, através da inseminação artificial, em alguns posts - vejam link para eles ao final deste. E quem leu sabe que, ao contrário da maioria dos casais, o desejo de ter filhos era mais meu do que da minha companheira, e sabe também como foi o processo para chegar à decisão de investir nesse sonho.
Cuidar de dois não é fácil. Mas basta um olha e um sorriso para valer a pena
Agora vou falar como tem sido nossa vida após o nascimento deles - fizeram nove meses dia 14/10 - e como tem sido o dia a dia com nossos bebês. Após o nascimento tenso deles, em que ficamos todos internados, saímos do hospital aos dezoito dias de vida deles. Fomos para casa, eles se ambientaram aos novos berços, e começamos a cuidar - com ajuda da minha mãe nos primeiros dias. Como eu estava de licença médica do trabalho, pois fiz uma cirurgia nas costas há pouco tempo, e a Gi de licença maternidade, resolvemos cuidar deles sozinhos, sem ajuda de babá, até o fim da licença da Gi. A primeira coisa que preciso falar a todos os meus amigos que me aconselharam dar valor ao sono antes dos meninos nascerem é... Vocês estavam certos! Nos primeiros meses a gente não dorme. Nos meses seguintes dorme um pouco, chega a umas três, quatro horas por noite! Tá, não é bem assim, e na verdade não posso reclamar, meus filhos dormem bem desde três meses de idade.
Segurar os dois juntos não e fácil!
Nossa rotina nos primeiros meses era assim: durante o dia, a Gi dava peito para um, trocava fralda, às vezes precisava trocar roupa, limpar, ficava no colo um pouco, e logo o outro queria a mesma coisa. Era dedicação exclusiva, trabalho durante o dia inteiro. Ao chegar a noite, combinei com a Gi que eu ficaria responsável por cuidar deles para que ela pudesse descansar. Meu turno iniciava às 11 da noite e terminava às 5 da manhã. Eles dormiam perto de meia noite, e por volta de duas, quase três da manhã, alguém começava a chorar. Aí eu levantava, trocava fralda, dava mamadeira e fazia dormir. Quando estava colocando no berço, o outro acordava, e fazia o mesmo processo. E quando acaba com o segundo, o primeiro acordava de novo. E começava tudo de novo. Interessante é que raramente os dois acordavam ao mesmo tempo. Achei que por estarem no mesmo quarto, quando um chorasse o outro acordaria e ia chorar junto, mas não era assim. Ainda bem. Quando isto acontecia de madrugada, aí eu tinha que chamar a Gi para ajudar. Ela vinha cambaleando, e cuidávamos dos dois juntos. E assim foi até o terceiro mês, quando eles começaram a dormir mais durante a noite. Aí meu turno ficou fácil... eu dormia e quando algum deles chorava eu ia lá ver e fazer o processo. Às vezes era só um chorinho bobo, como temos babá eletrônica, eu via pela tela se estava tudo bem, o choro parava e eu voltava a dormir.
Batizado dos gêmeos em Paula Cândido, terra da Gi
A Gi voltou a trabalhar no dia 1º de julho, e eu permaneci de licença médica - até hoje - pois minhas dores não diminuíram, pelo contrário, aumentaram. Decidimos então contratar uma babá para me ajudar. Demoramos três "experiências" até acertar, mas hoje estamos com uma pessoa ótima. A Gi sai para trabalhar pela manhã e ela fica com os dois, dá mamadeira, deixa eles no cercadinho brincando, e fica de olho, e quando vai fazer almoço eles ficam na cadeirinha. Eu acordo por volta de onze horas - não é preguiça, é que ainda durmo muito mal devido às dores, acordo às sete com a Gi, faço mobilização passiva e volto a dormir. Se eles ainda estiverem no cercadinho - alguns chamam de chiqueirinho, mas não acho eles tão porquinhos assim - fico no sofá, puxo para perto de mim e brinco com os dois. Atualmente eles gostam de ficar de pé segurando na beirada, eu coloco eles assim e ajudo a dar uns passinhos. Depois de algum treino aprendi a tirar eles do cercadinho e colocar, o que ajuda quando alguém fica nervoso. Também consigo tirar eles da cadeirinha e puxar para cima do sofá. Em outras atividades, dou sempre um jeito de levá-los. Quando saímos de casa sem o carrinho, eu uso o Canguru, é uma mão na roda, eles gostam de andar nele. Chega na garagem, antes de tirar e colocar no carro, fico dando voltas e girando a cadeira, eles se divertem!
Passeando no calçadão da Praia do Morro com o Max no Canguru
No dia a dia eles são muito bonzinhos. Não dão muito trabalho, aliás dão menos trabalho que muito bebê sozinho. Ficam quietinhos na cadeirinha vendo TV, se comportam bem no cercadinho. Comem muito bem, só a Anne faz uma carinha estranha a cada comida nova, mas acaba comendo. E estão crescendo muito! Aos nove meses, apesar de serem prematuros, já estão acima da média dos bebês nesta idade. A Anne está pesando 8,80 kg e o Max 8,40. Ela mede 75 cm e ele 71,5. Desde o nascimento ela é um pouco maior. Acho bom ele crescer logo, senão vai apanhar da irmã, já pensou que feio? Está avisado!
Já ficam de pé no cercadinho, daqui a pouco estarão andando
Apesar de bonzinhos, há momentos em que provocam o caos. Estão em uma fase que não param quietos, querem ficar de pé e ficam doidos para ir para o chão. Imaginem segurar dois bebês com pouco controle de tronco? Não é fácil, mas a gente dá conta. E é um ótimo exercício para o tronco. Na atual fase deles, só segurar no colo já é um exercício. Eles ficam se mexendo, tentando ficar de pé, querendo ir para o chão, e a gente tem que segurar eles com firmeza. Para não correr risco, procuro ficar próximo ao sofá ou outro lugar que eu possa me apoiar em caso de emergência. Ainda não ocorreu. Uma coisa interessante, eles já começaram a perceber que o papai é um pouco diferente. Às vezes estão na cadeirinha, no chão, e eu chego perto. Eles olham para a cadeira, depois para mim. É ótimo para a criança aprender desde o nascimento a conviver com as diferenças.
Além de tudo isto, é uma alegria muito grande poder acompanhar o dia a dia dos meus filhos, apesar de estar passando por dores muito fortes. Cada dia é um novo aprendizado, perceber eles aprendendo coisas novas, novos sabores, as primeiras sílabas e as brincadeiras diárias é muito bom. Poder dar comida a eles, carinho, colo, me faz esquecer um pouco das dores absurdas que estou sentindo. Espero controlá-las um pouco para ter forças para cuidar e acompanhá-los todo dia!
Utilizando a técnica certa é possível ganhar muita autonomia fazendo transferências
As transferências fazem parte do dia a dia da maioria dos cadeirantes. Quanto melhor o cadeirante fizer as transferências, mais independente ele será, e terá mais qualidade de vida. Porém é uma atividade que envolve riscos, pois uma queda durante uma transferência pode trazer sérios problemas. Por isto é preciso utilizar algumas técnicas para fazer as transferências com segurança.
O primeiro lugar que nos ensina a fazer transferências com rapidez e segurança é o Sarah. Lá aprendi as primeiras técnicas, e no dia a dia desenvolvi mais formas de transferir. No Sarah aprendemos o básico, transferir da cama para a cadeira, da cadeira para o carro, da cadeira para o vaso sanitário e vice versa. No dia a dia aparecem mais desafios, como transferir para a poltrona de um avião, para uma cadeira de banho com braços fixos, para cadeiras de escritório com rodas, para um banquinho para tirar radiografia e por aí vai. Já fiz cada transferência que muita gente duvida.
A tábua de transferências ajuda quem tem dificuldades
Com a técnica certa, é possível transferir para quase qualquer lugar. Só que não há uma técnica que sirva para todos, pois cada cadeirante tem suas limitações e características. Por isso desenvolvi uma teoria das transferências, que pode te ajudar a encontrar a técnica certa para você. Há pessoas, porém, que não conseguem fazer transferências por falta de força nos membros superiores. Nestes casos, podem ser utilizadas as tábuas de transferência, para escorregar o corpo até o local desejado.
Eu divido as transferências em três etapas: aproximação, preparação e transferência. Na aproximação, o cadeirante estuda as características do lugar a transferir e chega o mais próximo possível dele. Nesta etapa a cadeira de rodas deve ser posicionada em um ângulo em que a quina do assento dela fique o mais próximo possível da borda para onde se está transferindo. O que atrapalha nesse caso é a roda dianteira da cadeira, pois ela limita esta aproximação. Deve-se procurar entrar com a roda dianteira embaixo do assento para a aproximação ser mais eficiente.
Transferência para cadeira de banho é um exemplo de necessidade diária
Na etapa de preparação, o cadeirante faz o posicionamento do corpo para fazer a transferência com segurança. Nesta fase eu jogo o corpo para a frente, perto da beira do assento da cadeira de rodas e coloco um pé no chão. Então, apoio uma mão próxima ao centro da outra cadeira e a outra mão próxima também ao centro da cadeira de rodas. A ideia é centralizar os pontos de apoio para que não haja desequilíbrio no meio do caminho, por isso fica um pé na cadeira e outro no chão, e as mãos próximas ao centro das duas.
Na transferência propriamente dita, jogo o corpo direto no alvo, e aí pego as pernas e faço o ajuste. Este movimento deve ser feito somente se o cadeirante sentir segurança no equilíbrio, pois é aí que está o maior perigo de queda. Dependendo do equilíbrio, é possível fazer a transferência lentamente, garantindo que o corpo chegue com segurança no destino. Mas muitas vezes é preciso fazer mais rapidamente para evitar que um espasmo ou desequilíbrio comprometa a transferência. Quem define a velocidade e forma de realizar a transferência é o próprio cadeirante. E para atingir a técnica correta, somente com a prática. O que não pode é ficar com medo de transferir, pois esta prática ajuda muito a ter mais independência.
Ser pai é uma decisão complexa. Colocar um filho no mundo hoje em dia, com tantos problemas sociais, tanta violência, tantas possibilidades de desvio de caráter, desanima muita gente. Se há alguma limitação no casal então, como idade avançada ou alguma deficiência, desanima mais ainda.
Pois é, muitos homens tem receio de se tornarem pais depois dos quarenta. Acham que não vão dar conta de acompanhar uma criança com toda sua vitalidade, não vão conseguir correr atrás deles e nem brincar o tanto que deveriam. Eu já não consigo correr atrás de ninguém mesmo, então nesse ponto eu nem preocupo! Muitos homens tem mais receio ainda de se tornarem pais sobre uma cadeira de rodas, já que há algumas dificuldades a mais da vida de cadeirante, não dá para carregar o filho enquanto toca a cadeira, é possível complicações de saúde como infecções e internações e todas as limitações que todos nós já conhecemos.
E todo homem têm pânico de ter gêmeos! O trabalho é dobrado, o gasto é dobrado, e não dá para fugir do "trabalho". Se os dois chorarem ao mesmo tempo, o homem tem que cuidar de um enquanto a mãe cuida do outro. Mas vocês acham que eu tive algum receio para entrar nessa jornada? Negativo operante. Eu sempre quis ser pai, sempre gostei de crianças, me dou muito bem com elas – afinal, ainda não deixei de ser uma!
Não tem preço curtir estes projetos de gente!
Depois que consegui convencer minha mulher a ter filhos – não que ela estivesse preocupada se eu ia dar conta ou não, ela que não queria mesmo – mas agora está super feliz com a decisão! Eu sabia que haveriam desafios. Quanto a ser quarentão, isso não me preocupava, afinal sempre tive muita vitalidade e empolgação. O que me preocupa quanto a “aguentar o tranco” é minha dor crônica. Sim, além de ser cadeirante e quarentão, sofro de dor crônica. Fiz uma cirurgia há pouco tempo mas ainda não senti nenhuma melhora. E ainda sinto dores todos os dias, 24 horas por dia. Tento esquecer a dor, e não deixo de ajudar a Gi nem de curtir os meninos por causa dela.
Quanto a ser cadeirante, já enfrentei tantos desafios sobre uma cadeira de rodas, já me adaptei a tanta coisa, que não haverá problema em me adaptar a mais isto. Além disso, me inspirei em vários amigos cadeirantes que já são pais, todos eles me deram dicas e exemplos do quanto é tranquilo lidar com a cadeira e a paternidade. No fim das contas, como tudo na vida de um cadeirante, é possível adaptar-se para levar a paternidade sobre rodas. Adaptei o quarto deles e estou usando alguns macetes para lidar com eles. No vídeo acima eu mostro um pouco disso!
Após o nascimento dos gêmeos, primeira foto da família completa
O mês de janeiro foi marcante para minha família, sob dois aspectos. Foi o mês em que tivemos a maior emoção de nossas vidas: o nascimento de Anne e Max, os gêmeos que estivemos esperando nos últimos oito meses, após fazermos uma inseminação artificial. Mas também foi o mês em que passamos um dos maiores perrengues de todos: uma "internação coletiva".
Poucos dias antes do nascimento dos gêmeos apareceram "erupções" nos meus braços, machucados semelhantes a espinhas que foram crescendo e inflamando. Aí veio a febre, na primeira vez que passou de 38 eu tomei Tylenol para baixar e deu certo. No dia seguinte, voltou a febre, e fiz a mesma coisa. No terceiro dia, véspera do nascimento dos gêmeos, mais uma febre de quase quarenta e uma dor no corpo intensa. Como eu iria ao hospital no dia seguinte mesmo, segurei a onda e aguentei.
Fomos então para o hospital ter nossos filhotes. O parto foi de manhã, chegamos cedo ao hospital e fomos para o bloco obstétrico. Senti o corpo quente mas aguentei para acompanhar de perto o nascimento dos meninos, e logo me chamaram para a sala de parto. Assisti ao nascimento dos dois com muita emoção, é incrível ver eles saindo da barriga da mãe e acordando para o mundo. Max nasceu com 1.685 gramas, e Anne com 2150 - nasceram prematuros, de 35 semanas e meia. Foi cesariana porque a gestação era de risco, a Gi chegou a ter sangramentos que nos assustaram bastante. Assim que os prepararam, foram levados para o berçário, e eu fui atrás. Lá, ficaram na incubadora para observação. Max, apesar de pequeno, nasceu bem formado e bem forte, mas precisou de sonda de alimentação para ganhar peso, pois poderia não aguentar sugar o peito. Anne também nasceu forte, mas teve dificuldades respiratórias devido à formação incompleta dos pulmões - coisa comum em bebês prematuros - e precisou seguir para o CTI Neonatal do hospital.
Após acompanhar o desenrolar do destino dos bebês, desci para o Pronto Atendimento do hospital para cuidar do meu caso, pois a febre já estava aumentando. Acabei internado também, e sem possibilidade de ver como estavam os bebês e nem a Gi. A sorte é que meus pais estavam nos acompanhando e me mantinham informado, e lá pegava celular e pude continuar em contato com a Gi. Entrei no antibiótico e a febre reduziu, mas precisaria ficar dez dias internado tomando antibiótico. Nesse meio tempo a Gi também teve complicações, identificaram uma infecção bacteriana na ferida da cesariana, e precisou tomar antibiótico também. A esta altura, quatro dias após o nascimento dos gêmeos, eu estava internado no PA ainda, pois não havia quartos disponíveis ainda, a Gi estava internada no quarto, a Anne estava no CTI e o Max no berçário pegando peso. A família inteira internada no mesmo hospital e sem contato. Somente o Max ia até a Gi para mamar e voltava para a incubadora. Não aguentei e consegui fugir para ver a Gi e o Max, e depois consegui autorização para ver a Anne no CTI. É de cortar o coração ver seu bebê com sonda na boca, respirador no nariz, acesso no braço e vários fios ligados ao corpo para monitorar batimento cardíaco, saturação, etc.
A Gi precisava de máscara até para ver a Anne no CTI
Depois de onze dias internado, recebi alta. O Max também teve alta do berçário assim que atingiu 1,8 Kg. Porém a Anne continuou no CTI e a Gi continuou internada tomando antibiótico, e para piorar teve febre e precisaram colocá-la em isolamento e mudaram o antibiótico. Para pegar o Max ela tinha que colocar uma capa estéril, luvas, máscara e toca. Era triste não poder nem tocar no seu filho, sem contar as restrições de contato com as pessoas. Ela não podia nem me dar um beijo. Foi bem sofrido, mas felizmente passou, e o antibiótico novo fez efeito. Finalmente, após quatorze dias de CTI, a Anne teve alta e subiu para o quarto. O clima ficou bem mais tranquilo para nós, eu podia sair de casa e passar a tarde com a Gi e o bebês. A Gi estava prestes a ter alta e nossa casa estava preparada para recebê-los. Mais quatro dias e finalmente a Gi teve alta, e fui buscar a turma toda no hospital. Foi uma grande alegria chegar com todos em casa e colocá-los finalmente em seus berços no quarto que preparamos com carinho para eles. Fiz uma adaptação no armário para instalar um trocador que eu pudesse entrar com a cadeira embaixo e manusear os meninos com segurança. Deu muito certo, vejam no vídeo acima. Depois farei outro mostrando como ficou na prática. Agora estamos todos em casa curtindo os bebês e dormindo quase nada... E tem valido a pena!
Agora os bebês estão em casa, curtindo sonecas e mamadas
Aproveito para agradecer aos meus pais, que deram um apoio fundamental, e a todos que nos mandaram mensagens e orações para nossos bebês!
Às vezes a porta atrapalha na entrada, às vezes na saída
Abrir e fechar as portas são um desafio no dia a dia de um cadeirante. Se a porta abre para dentro, o cadeirante tem que posicionar a cadeira em uma distância que consiga alcançar a maçaneta, puxar e abrir a porta toda para conseguir passar com folga. Só que para fechar... dependendo da estrutura do apartamento, é até perigoso. Se precisar se esticar muito, ou se tiver algum ressalto entre a porta e o corredor, dá para desequilibrar.
Muita gente faz o processo em etapas, o que demora mais, mas é mais seguro. Funciona assim: puxa a porta um pouco, empurra a cadeira um pouco, puxa mais, empurra mais, até conseguir fechar completamente. O mesmo processo pode ser adotado para abrir portas mais difíceis. É mais demorado, mas muitas coisas que fazemos devem ser feitas assim, com paciência.
Mas um dos maiores desafios é abrir portas de elevadores. Isto porque elas tem molas para se manterem fechadas e muitas são bem pesadas. A técnica que uso é tentar "ancorar" a cadeira de rodas em uma parede ou apoio próximo para conseguir puxar a porta com mais facilidade. Puxo um pouco a porta, travo na parede, e aí fica mais fácil puxar o restante e abrir a porta completamente. Outra alternativa é usar o mesmo método que descrevi acima, em etapas, puxando um pouco e acertando a cadeira, até abrir a porta toda. O ideal é quando não há "segunda porta" no elevador, a própria porta interna abre a porta de fora e dá acesso ao exterior. Estas portas a gente vê mais em prédios públicos. Em prédios residenciais geralmente há a segunda porta para abrir.
De qualquer forma, precisamos encontrar sempre alternativas para tornar nosso dia a dia mais fácil. Até o dia em que criarem portas com controle remoto, para abrir e fechar com apenas um toque. Ah, se eu tivesse grana...
Taí uma tarefa que costuma ser enjoada - até pegar a prática
Logo que sofri o acidente que me deixou paraplégico, percebi que uma das tarefas mais rotineiras e repetidas precisaria ser adaptada: trocar de roupa. Como sou muito alto e pesado, com a perda dos movimentos, deitado, e ainda machucado no ombro, não pude auxiliar muito as enfermeiras que me atenderam e dei bastante trabalho nas trocas de roupa. Para colocar e tirar bermudas e calças, elas me viravam para um lado, subiam um pouco uma perna, me viravam para o outro, e assim ia, pelejando. Quando chegava na cintura a coisa complicava, muitas vezes era preciso erguer o quadril, e aí era preciso a ajuda de um parente ou de um enfermeiro mais forte.
Quando comecei a me virar sozinho, imitei a técnica das enfermeiras, e ficava me virando na cama para vestir calças. Parecia uma cobra enlouquecida, vira para um lado, puxa do outro, vira de novo, puxa mais um pouco. Achava isso tudo muito trabalhoso e cansativo. Assim que fui para o Sarah acreditei que me ensinariam técnicas mais apuradas e menos cansativas, mas disseram que a melhor forma de vestir calça era deitado mesmo, puxando aqui e ali até chegar na cintura. Até ensinaram a puxar sentado na cama, porém não acrescentou muito. Mas eis que, em conversa com outros internos, me deram a dica: poderia vestir calças sentado na cadeira, aproveitando as mãos grandes para apoiar nos protetores de roupa e puxar a calça com os polegares. Desde então, só me visto desta forma. Acho muito mais rápido e menos cansativo do que deitado. E este é outro motivo para usar os protetores de roupa com abas dobradas que mostrei no post anterior. Este modelo permite segurar com as mãos e puxar a calça ao mesmo tempo.
Calças Jeans são mais complicadas de vestir
O cuidado que se deve tomar é o ajuste da calça atrás, pois nesta técnica a calça pode não subir completamente e deixar à mostra o famoso "cofrinho", o que garante uma "pagação de mico" nas transferências. Pior ainda é quando a calça agarra em algum lugar nas transferências e o espetáculo é ainda maior, com um verdadeiro "strip tease". Já aconteceu comigo algumas vezes, principalmente quando a calça agarra no protetor de roupa da cadeira ao sair do carro. Graças a esse descuido já fiquei de cueca algumas vezes na garagem do trabalho. Felizmente não havia mulheres por perto e consegui puxar rapidamente a calça, mas rendeu boas risadas dos manobristas e de quem estava passando...
Aí entram minhas dicas sobre a escolha da calça. Hoje já existem calças adaptadas para cadeirante, até mesmo jeans, mas como ainda não conheço e nem experimentei, vou falar de calças comuns. Para o dia a dia, recomendo usar calças de nylon ou outro material escorregadio, pela facilidade para colocar e tirar. E também por serem confortáveis e bonitas - pelo menos para mim. No horário comercial, para quem trabalha em escritório, em atividade administrativa, tem a opção de usar calças sociais. Elas também são muito fáceis de vestir e confortáveis para o dia a dia. Mas e as calças jeans? Usadas pela maioria das pessoas, elas também podem ser vestidas com esta técnica, e apesar da maior resistência, entram até o final com algumas reboladas (sem duplo sentido, por favor).
Calças de nylon e materiais lisos são mais fáceis de vestir
Veja no vídeo abaixo a técnica que uso. Gostaria de deixar claro que ela só deve ser tentada se o cadeirante tiver bom controle e equilíbrio do corpo, além de força nos braços. Nas primeiras tentativas, é importante ter alguém por perto apoiando para um caso de desequilíbrio. Minha lesão é alta, T2 óssea e medular C7 - portanto sou considerado tetra, mas nunca perdi força nos membros superiores e recuperei alguma musculatura abaixo da lesão que me permitem fazer isto e outras peripécias com segurança - que com o tempo, aprimorei. Essa é a chave para qualquer atividade, se não se sentir seguro, não faça.
Enfim, espero ajudar outras pessoas que procuram formas de agilizar estas atividades do dia a dia. Para mim, funciona!
Em 2010 publiquei aqui um post falando sobre os espasmos nas pernas, que tanto incomodam quem sofre uma lesão medular. Incomodam tanto que atrapalha até a gente dormir. Os espasmos sempre tem um motivo, e há formas de combatê-los. Ou, pelo menos, de amenizá-los. Tem gente que dorme mal só por causa dos espasmos, e ainda atrapalha a companheira ou companheiro a dormir. A mulher de um amigo descobriu um colchão com densidade diferente de cada lado, e agora o espasmo não atrapalha ela! Espertinha...
Um dos motivos da ocorrência de espasmos é algum incômodo no corpo. Como não sentimos o corpo da lesão para baixo, se algum músculo estiver dolorido, se algum osso estiver pegando em algum lugar, ou mesmo se houver algum início de úlcera de pressão, os espasmos surgem para avisar. Portanto, se estiver deitado ou sentado e começarem os espasmos, tente mudar de posição para ver se resolve. Estique uma perna, mude de lado, ou sente um pouco. Procure identificar o local que te traz incômodo, veja se há áreas onde a pele está começando a ficar vermelha. Pode ser um início de escara.
No caso dos homens, se os testículos estiverem sendo apertados, taí um bom motivo para aparecer um espasmo. Se estiver deitado de lado, eles podem estar sendo apertados. Nós homens sabemos como dar aquela "arrumadinha" nas bolotas para deixar tudo mais folgado. Às vezes isto basta para parar os espasmos.
Outra coisa que causa espasmos são necessidades fisiológicas. Se a bexiga estiver cheia, a perna começa a puxar. No meu caso, isso é batata. A maior parte das vezes que tenho espasmos constantes, daqueles que a perna mexe três vezes, para, passam cinco segundos, e ela mexe de novo três vezes. Posso até ter feito cateterismo há pouco tempo, mas às vezes meus rins estão "frenéticos" e produzem muita urina de uma vez, e a bexiga enche rapidamente. Faço outro cateterismo, e pronto, adeus espasmos. Intestino cheio também causa espasmos. Um tempinho no "trono" fazendo massagens no abdômen podem trazer algum alívio.
Ah, o mais importante: exercícios. Eu sempre faço exercícios nas pernas à noite, a famosa mobilização passiva. A falta de movimento também ajuda nos espasmos. Os músculos encurtados, os tendões, eles precisam de movimento, mesmo que pouco.
Há um paliativo para os espasmos, o famoso Baclofeno. Eu tomo todo dia, de oito em oito horas, foi recomendação do Sarah. Quando fico sem, percebo que fico com mais espasmo mesmo.
Mas, infelizmente, pode ser que nada disso dê resultado. E os espasmos continuem perturbando. Aí, amigo, o negócio e contar isso para um médico da área. De repente, ele te ajuda. Mas que dá raiva, dá, as pernas não funcionam para o que é importante, mas ficam se mexendo sem ninguém mandar. Que desobedientes!
Alguém tem outra receita para evitar espasmos?
A partir de julho de 2006 entrei para um seleto grupo de pessoas que aguarda ansiosamente novidades vindas de cientistas e pesquisadores sobre a solução de um grave problema de saúde. Nesse seleto grupo podem ser incluídos portadores de HIV, câncer, lesões medulares e dezenas de outras doenças e imperfeições que ainda são incuráveis. São problemas que vem sendo pesquisados há anos, mas infelizmente até hoje os avanços só trazem melhora na qualidade de vida, sem, entretanto, eliminar a causa.
Ficar esperando não é a solução
Uma vez nesse grupo, você tem algumas alternativas para levar sua vida. Pode acreditar que a cura está próxima, afinal, são centenas de pessoas pesquisando há tantos anos, que a cada dia aumenta a probabilidade de descobrirem a solução. Enquanto isso você aguenta impacientemente, lendo tudo que sai sobre o assunto na mídia, faz contato com pesquisadores e entidades de pesquisa para saber dos avanços e só pensa no que vai fazer quando tudo se resolver. Ah, e junta um montão de dinheiro para pagar o tratamento adequado assim que a cura for descoberta, afinal você não vê a hora de ficar livre disso e voltar a viver sua vida e perseguir seus sonhos. Com esse objetivo, mal mal você sai de casa, não compra nada para seu prazer e arquiva todos seus sonhos para depois que o "milagre" chegar.
Sonhos a gente realiza driblando as limitações
Ou você pode pesquisar formas de tornar sua vida cada vez melhor e adaptar sua realidade para realizar seus sonhos.
Me incluo neste segundo grupo, pois acredito que é muito melhor celebrar o milagre que é estar vivo ao invés de esperar acontecer um milagre para que eu volte a viver. Nessa época de tanta esperança no futuro e fé na vida, deixo aqui meu recado junto com votos de boas festas e um próspero ano novo: viva o milagre da vida intensamente, pois assim perceberá que muitos pequenos milagres te acompanharão nessa jornada todos os dias. Ao invés de depositar sua fé no trabalho dos outros, tenha fé em si mesmo e na sua capacidade de realizar seus sonhos e ser feliz!
Boas festas e um ano novo iluminado para todos!
Mais uma invenção do Múcio, o professor Pardal sobre rodas: ele adaptou uma mesa que encaixa perfeitamente na cadeira de rodas e ele pode usar para almoçar, lanchar, e até trabalhar se quiser. A ideia surgiu da necessidade de ter um local ideal para comer, na altura certa e com estabilidade suficiente para não causar um desastre.
Este é um problema recorrente de todo cadeirante: como a cadeira de rodas é mais alta que a maioria das cadeiras, é comum encontrarmos dificuldade para entrar embaixo das mesas de restaurantes, e quando dá para entrar, a mesa fica tão baixa que temos que praticamente nos curvar para conseguir comer sem o risco de cair comida no colo.
Vista frontal da mesa adaptada
Pensando nisso, o Múcio bolou, juntamente com seu cunhado, essa mesa das fotos que se encaixa perfeitamente nas laterais da cadeira dele e tem a altura e inclinação ideal para ele, além de contar com um prático porta copos no canto superior. É um produto feito sob medida, e só foi possível porque o cunhado dele tem uma serralheria. Ele utilizou os encaixes de braço de uma cadeira dobrável em X e parafusou-os nas laterais da cadeira dele, uma monobloco. Aí criou a estrutura da mesa de forma que encaixa nas duas laterais e fica firme, sem balançar. E ainda tem a vantagem de entrar por cima da mesa da casa dele, o que permite ficar junto a todos na hora da refeição.
Detalhe do encaixe da mesa
Ele ainda regulou a inclinação da mesa para que o prato não escorregue para cima dele ou para fora. Dá até para tocar a cadeira para onde quiser com o prato e copo sobre a mesa, ela tem uma pequena borda que impede que o prato caia. Isto é importante para quando a pessoa quiser ir até a cozinha ou outro lugar sem precisar retirar a mesa ou até mesmo o prato.
A mesa vista de baixo. Detalhe para os reguladores de inclinação.
Mais uma grande sacada do Múcio, que prova mais uma vez que é possível melhorar a qualidade de vida de quem vive sobre uma cadeira de rodas com boas ideias. Pena que não tem como comprar uma mesa dessas, pois é feita sob medida, e foi feita especialmente para ele. Quem sabe o cunhado dele não anima atender alguns pedidos?
Quinta feira foi um dia normal na minha vida. Acordei oito da manhã, liguei a TV enquanto fazia exercícios com as pernas (mobilização passiva). Tomei café da manhã na cama com minha mulher (todo dia ela traz para mim na cama), me vesti e saímos. Eu dirigindo, como sempre.
Deixei ela no trabalho às nove e segui para a Aquafisiobh, onde faço fisioterapia. Cheguei lá e comecei com musculação, depois fiz exercícios no saco de pancadas com luva de boxe (muito divertido), e aí fiz fisioterapia com a Rosa. Saí de lá, com uma música muito boa e animada no carro, com o teto solar aberto, passei no Mc Donald's (drive thru) e pedi um sorvete (estava calor pra caramba). Cheguei em casa, peguei minha cadeira e subi. Fui para o sofá e fiquei batendo um papo sobre o mercado de ações com minha mãe (que está me visitando). Trocamos uma ideia sobre os rumos do mercado e fui almoçar - uma comidinha caseira feita pela Zélia (minha diarista).
Socando na fisioterapia
Fui para o quarto, troquei de roupa e desci para a garagem. Peguei o triciclo elétrico, acoplei a cadeira de rodas no para choque dele e saí para o trabalho. No caminho, dei uns três ou quatro jóias para motoristas que me olhavam rindo e acenando. Um motorista parou ao lado da "figura" aqui e me perguntou quem teve a ideia, respondi que fui eu e ele me parabenizou.
Cheguei no trabalho e de cara fui para uma reunião com um colega sobre uma ferramenta importante para a gestão financeira do banco. Depois fui para minha "baia", conversei com alguns colegas e trabalhei. Na hora do café, chamei dois colegas e ficamos batendo papo e contando piadas e casos. Voltei para o computador e trabalhei até as 18:30, um trabalho dinâmico e de muita responsabilidade, além de muito importante para a empresa.
Saí do trampo de triciclo, com a cadeira a reboque, e fui pra casa. No caminho, mais gente falando comigo, elogiando a ideia e se surpreendendo. O trânsito estava meio parado, mas fui me encaixando entre os carros, curtindo o trecho e a pilotagem, conferindo de vez em quando se a cadeira estava bem.
Cheguei em casa, peguei a cadeira, subi e não tinha ninguém em casa. Passei para a cadeira de banho, tomei um banho muito relaxante, coloquei a roupa e fui lanchar. Minha mulher chegou, falamos sobre o dia, batemos papo, programamos um pouco do fim de semana e assistimos um pouco de tv enquanto eu conferia e-mails. Meus pais chegaram, batemos mais papo assistindo jornal e depois novela, e mais tarde fomos dormir.
E tem gente que diz que não é possível ter uma vida normal em uma cadeira de rodas... Que bom! Prefiro ter uma vida ativa, animada, divertida e cheia de desafios. Vida normal? É muito chata...
Navegando pelo Facebook, deparei com dicas sobre manutenção de cadeiras de rodas, na funpage das Mulheres Cadeirantes. Achei muito pertinente e importante, e resolvi publicar aqui. Já passei aperto para consertar minha antiga cadeira (a Jangadinha), quando o parafuso que segura o apoio de braço se quebrou. Ela já estava meio sambada, com os braços bambos e os aros precisando apertar, então, procurei na Internet alguém que desse manutenção em cadeiras de rodas em BH. Nada feito. Mas me lembrei que certa vez estive em uma loja de cadeiras de rodas elétricas e a moça que atendeu disse que tinha um "mecânico". Liguei para ela e consegui o número, mas o cara me cobrou quase cem reais só para vir na minha casa e dar uma geral. Depois disso decidi aprender mais sobre a cadeira e dar manutenção por conta própria.
Bem, vamos às dicas:
- A cadeira de rodas, como qualquer outro veículo, tem uma vida útil que muito depende da utilização e do cuidado com que é manuseada. Importante é saber utilizá-la da melhor maneira possível, respeitando seus limites e fazendo uma manutenção preventiva e eficiente.
- Mantenha sua cadeira limpa e livre de poeira. Limpe com um pano limpo e úmido embebido em álcool. Não há sujeira que resista!!
- Lubrifique sempre que for necessário: eixos, rolamentos das rodas, garfos e articulações do corpo. Sugere-se lubrificar mensalmente com graxa lubrificante apropriada. Nessa ocasião, verifique também possíveis folgas em porcas, parafusos e estrutura. Ajuste-as se necessário.
- Troque os revestimentos do assento e encosto, assim que apresentar rasgos ou deterioração pela ação do tempo.
- Não exponha a cadeira de rodas em lugares úmidos ou diretamente aos raios solares, guarde em local apropriado e bem ventilado. Isso evitará o ressecamento e possíveis rachaduras das peças plásticas como: buchas, ponteiras, rodas e etc.
- Use sempre peças originais de fábrica.
- Se possível sempre tenha pneus e câmeras de ar de reserva .
A chave allen quebra um galho e é fácil transportar
Na minha opinião, as dicas mais importantes são referentes a limpeza, lubrificação e apertos. Eu ando sempre com uma chave allen de 4 milímetros na pochete, pois essa medida aperta a maior parte dos parafusos da minha cadeira, uma M3. E eventualmente um ou outro parafuso aparece com folgas, principalmente os que seguram os protetores de roupa (aqueles para-lamas sobre as rodas). Uma chave de fenda tipo phillips também é uma boa alternativa para levar (levo sempre na handbike).
Outra dica que dou: compre um mini compressor de ar, daqueles feitos para usar no carro, e fabrique um adaptador para usar em casa. Nesse post eu ensino como fazer. Para quem tem pneus infláveis, é muito importante. A minha cadeira veio com pneus maciços, perde conforto mas ganha em praticidade.
Enfim, trate bem sua cadeira. Ela é uma parceira diária que te leva pra todo lado!
Alguém já viu o filme B "O Ataque das Formigas"? Ultimamente tenho me sentido dentro daquele filme. Já tem um bom tempo que eu sinto formigamento nas pernas, mas está aumentando drasticamente. Sempre que falo isso as pessoas dizem "que bom, é sinal de recuperação". Não sei se realmente é, mas sem dúvida minha sensibilidade está aumentando. Sinto a panturrilha, coxas e até os pés. Às vezes fica tão forte que os pés latejam.
Outro dia li um artigo sobre uma para-ciclista que estava treinando para as para-olimpíadas e sofreu um acidente. Depois disso, começou a sentir formigamento nas pernas, depois veio a sensibilidade e recuperou os movimentos. Hoje já está andando, mas disse que foi uma pena não poder participar do evento, pois estava treinando forte e tinha chances de medalha.
O problema do formigamento, é que ele se junta à dor crônica e vira queimação. Então fica tudo uma bagunça, dor, formigamento, queimação, e o resultado é que tem noite que não consigo dormir. Nem com Tylex, pois ele melhora a dor, mas não tem efeito sobre o formigamento. Bem, se for para evoluir de alguma forma, mesmo que seja só sensibilidade, então essas noites sem sono terão valido a pena. Pelo menos eu não trabalho de manhã mais, só de tarde, e acabo passando as manhãs dormindo.
O que eu queria saber é se isso é normal, se outros lesados medulares sentem tanto formigamento assim. E se incomoda tanto quanto no meu caso.
Há alguns meses conheci o Tribike, um triciclo elétrico feito para deficientes com um excelente custo/benefício. Vi fotos e vídeos do triciclo, estudei as especificações e conversei com a fábrica, que fica no Rio Grande do Sul, para saber mais sobre o produto. E agora, em parceria com a Hélio Adaptações, estou representando o triciclo em Belo Horizonte!
Fala a verdade, é lindo né?
As especificações do triciclo, eu já dei no primeiro post sobre ele, portanto vou só resumir aqui: 800 Watts de potência, 60 quilômetros de autonomia, painel digital total, suspensão dupla hidráulica, farol dianteiro baixo e alto, setas, luz traseira e luz de freio, console porta objetos com chave, assento com seis opções de regulagem, cinto de segurança, marcha a ré, alarme, freio de mão e porta objetos no encosto, além de compartimento embaixo do banco para capacete.
Curtindo de triciclo elétrico em frente à Praça da Estação
Agora poderei falar sobre minha experiência e impressões sobre ele no test drive que fiz hoje. Primeiro, a transferência. Não é muito fácil, já que o triciclo é alto, mas uso uma técnica que resolve: apoio no banco do triciclo e no encosto da cadeira, e subo. Depois, é só se ajeitar. Nada complicado, né? Para demonstrar, fiz um vídeo, que vai logo abaixo. Nele dá para perceber algumas vantagens do triciclo: primeiro, tem alarme, como o dos carros, que destrava à distância, no chaveiro. Segundo, o freio de mão. Ele é composto de uma peça que trava o freio traseiro, o que traz mais segurança na transferência. Além disso, dá para ver o apoio de braço escamoteável e o cinto de segurança.
A saída com o triciclo demanda um pouco de treinamento para ser suave, pois o motor é forte e dá um leve tranco. Mas nada complicado. Ele é muito fácil de controlar, é só acelerar e frear. As curvas são suaves e o ângulo de virada é muito bom, dá para manobrar com facilidade. E a marcha a ré, que tem até apito sonoro, resolve qualquer manobra. Na cidade ele anda muito bem, sem correr demais, é muito estável e a suspensão dá muito conforto. E é muito gostoso de pilotar, não faz barulho e roda macio! Veja nos vídeos abaixo eu saindo e chegando com o triciclo em casa.
Uma das maiores vantagens do Tribike é o custo: como é elétrico e tem boa autonomia, gasta menos de um centavo por quilômetro rodado!