terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Como medir um cadeirante

Haja fita métrica pra mim!
Essa semana recebi a seguinte dúvida de um leitor: como medir um cadeirante? Quem perguntou foi o Aldenir, professor de Educação Física que se deparou com este problema. Acredito que a maior dúvida dele é como fazer isto sem uma cama ou maca por perto, com a pessoa na cadeira mesmo. Depois que virei cadeirante, me medi umas duas ou três vezes, para ver se eu tinha encolhido. E encolhi mesmo! Perdi alguns milímetros por causa do acidente, afinal minha vértebra T2 explodiu, e além disso, a pessoa sentada o tempo todo, sem alongar, sem levantar, pode encolher um pouco com o passar dos anos. Eu já perdi dois centímetros, tinha 1,95m antes do acidente, e na última medição, que no meu caso faço de pé mesmo, deu 1,93m. Essa técnica é até engraçada, eu fico de pé com as talas nas pernas e a Gi pega uma cadeira (tem que ser cadeira mesmo) e fica na ponta dos pés para alcançar minha cabeça com uma trena.
Na impossibilidade de deixar o paciente de pé, qual a alternativa? Para responder a esta pergunta recorri à minha ex-super-fisioterapeuta Andrezza Rodrigues, que me deu a seguinte resposta:
"Você deita o paciente bem retinho na cama (o ideal seria uma maca) faça um risco no topo da cabeça marcando na maca e outro risco no calcanhar com as pernas bem esticadas e a ponta dos dedos voltadas para trás. Peça ao cadeirante para sair do local marcado e meça a distância de um traço ao outro.
A outra forma é: primeiro medir as pernas hiper estendidas; calcanhar à espinha iliaca antero superior (EIAS); depois a cabeça do úmero até a EIAS, e por ultimo a cabeça."
Ela prefere a primeira forma, acha mais fidedigno. Fiz o teste na cama e deu em cima, 1,93m. É muito metro de homem... Esse tamanho todo às vezes ajuda, às vezes atrapalha. Só minhas pernas tem 1,04m, e sem movimento, tem hora que é um parto "trazer" elas junto comigo. Passar elas por baixo do voltante ao entrar no carro é sempre complicado. Por outro lado, para pegar coisas no alto, meus dois metros de envergadura (braços abertos) ajudam muito.
Agradeço à Andrezza pela explicação e pela contribuição! Agora já sabem: qualquer dúvida, perguntamos para tia Andrezza!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Empresa aérea deve atender necessidades de deficientes físicos

Devemos exigir nossos direitos sempre
Ultimamente tenho lido muitos relatos de cadeirantes reclamando do tratamento recebido por companhias aéreas. Eu mesmo já passei muita raiva e alguns perrengues em viagens pelo Brasil. Em uma delas, perderam uma almofada Roho minha, e eu entrei na justiça, recuperando o valor da almofada e ainda um acréscimo por danos morais. Muita gente deixa de entrar na justiça por acreditar que o caso não se aplica ou que tem pouca chance de ganhar. Para estas pessoas, falta uma consultoria jurídica para orientação. Agora o Blog do Cadeirante conta com uma parceria jurídica. O advogado Lucas Brito fará postagens por aqui sempre que alguém tiver alguma dúvida relevante ou importante. Espero que gostem!
"O Código de Defesa do Consumidor estabelece que o fornecedor de serviços, ao se instalar no mercado de consumo, deve dispor de todo aparato tecnológico e humano, de modo a garantir atendimento adequado e eficaz ao consumidor, evitando constrangimentos indevidos, sob pena de responder pelos danos causados.
E quando o assunto é a prestação de serviços de transporte aéreo, notadamente quando o serviço é prestado para passageiros com necessidades especiais, as empresas do setor devem estar preparadas para garantir a esse passageiro um atendimento adequado e eficaz, devendo seguir à risca as regras estipuladas pela Agência Nacional de Aviação (Resolução nº 009 de 05 de junho de 2007).
Entretanto, a realidade passa longe daquele atendimento adequado e eficaz estabelecido pelo CDC e pela ANAC. O que se verifica na prática é o total desrespeito àquelas pessoas que necessitam de cuidados especiais para embarcar e desembarcar das aeronaves. E a insatisfação com o tratamento dado pelas Companhias aéreas a esses passageiros cresce a cada dia. Basta uma simples consulta às redes sociais para constatar essa indignação e entender as dificuldades enfrentadas.
Uma das falhas das Companhias aéreas é não bloquear pelo menos um assento destinado ao passageiro com necessidades especiais. Explico: Não é novidade que os passageiros com dificuldades de locomoção precisam de assentos junto aos corredores, dotados de braços removíveis, localizados nas primeiras fileiras. Ora, se o passageiro, ao comprar seu bilhete, informou que tinha esta necessidade, qual é a razão de não se bloquear pelo menos um assento para uso dele, de modo a evitar que terceiros, sem necessidade, ocupem o lugar? Essa simples medida evitaria o constrangimento do passageiro com restrições de locomoção ter que tomar um lugar inadequado, para posterior reacomodação.
Outra falha que causa indignação é o despreparo dos funcionários da Companhia aérea acerca das regras da ANAC, que tratam do acesso ao transporte aéreo de passageiros com necessidades especiais. Por favor, me corrijam se estiver errado, mas tenho convicção de que não é o passageiro que deve informar seus direitos aos funcionários da empresa. Pelo contrário, o correto é o passageiro receber todas as informações acerca dos seus direitos naquele voo.
Ademais, é sabido e notório que a empresa aérea deve disponibilizar veículo equipado com elevador para efetuar, com segurança, o embarque do passageiro com restrição de locomoção, principalmente se a aeronave estiver estacionada em posição remota. Qualquer tentativa dos funcionários da empresa aérea em erguer o passageiro não comparece procedimento seguro, o que deve ser rechaçado de plano por aquele passageiro com necessidades especiais que pretende viajar de avião.
E veja, um passageiro com necessidades especiais enfrentou todas essas falhas que acabei de comentar, ao viajar por um trecho Brasília – São Paulo. Indignado, ajuizou ação contra a Companhia aérea, o que acarretou na condenação da empresa em R$4.000,00 por danos morais. E olha o que disse a Juíza do Juizado Especial do Consumidor ao julgar o caso:
"o autor foi exposto a todo constrangimento diante dos demais passageiros ao fim de ver atendidos os seus direitos de portador de necessidades especiais, tendo de se submeter às ordens do comandante e ficar na poltrona 1-B, além de ser exposto a vexame, como se o outro passageiro reacomodado estivesse fazendo uma gentileza, e não simplesmente cumprindo o determinado pelo art. 30 da Resolução nº 009 da ANAC". (TJDFT. Processo: 2013.01.1.058045-0)
A 1ª Turma Recursal do TJDFT confirmou a decisão. 

Um abraço e até a próxima.
Lucas Brito


* Obs. : o termo "portador de necessidades especiais"  é utilizado pela ANAC por entender tratar-se de deficientes, idosos e outros. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Can Am Spyder adaptada para cadeirantes

Can Am Spyder com a cadeira de rodas, e o Anderson ao lado
Já mostrei aqui o triciclo elétrico Tribike que utilizo no dia a dia e se parece com uma moto, tem a cara e o porte de uma Biz. Ela é preparada para rodar no trânsito, é ágil e silenciosa, e para quem curte tem um gostinho de moto, aquele ventinho na cara e sensação de liberdade. O problema é que não dava para levar a cadeira de rodas junto, mas acabei resolvendo a parada com dois mosquetões. Funciona, mas a cadeira sofre absorvendo as irregularidades do asfalto. Não é tão ruim, pois o Tribke não corre muito, anda em média a 25 km/h. É um veículo legal, dá para sentir um pouco a sensação de moto, mas fica devendo...
Can Am Spyder 990 Rotax
E eis que descobri um outro veículo muuuuito mais legal que o Tribike, um triciclo de grande porte com duas rodas na frente e com alta cilindrada e muita tecnologia:  a Can Am Spyder! Eu já havia visto nas ruas, imaginei que seria possível um cadeirante guiar, mas não imaginava que poderia ser um veículo autônomo! Considero um veículo autônomo aquele que permite a um cadeirante sair sozinho, chegar a algum lugar e passar para a cadeira sem ajuda de ninguém. Enfim, independência para sair e ir para qualquer lugar.
A adaptação que permite levar a cadeira de rodas
Até que vi uma foto de um amigo de BH, o Anderson Cobra, com uma Spyder adaptada para deficiente! A adaptação é uma caixa de metal fixada na lateral da Spyder onde ele encaixa a cadeira de rodas. O câmbio dela é semi automático, é necessário passar as marchas na mão, em uma alavanca abaixo do punho esquerdo, semelhante ao câmbio das bicicletas: com o dedão a gente sobe as marchas e com o indicador reduz, mas a redução, se não for feita, é automática. Muito fácil de guiar e extremamente estável, a Spyder transmite muita segurança. A adaptação é parafusada ao quadro da Spyder e a cadeira de rodas dobrada é fixada por esticadores. O freio passou do pé para o punho direito, e além disso há uma plataforma para apoiar o pé, evitando que se solte. E para completar, um cinto de segurança ajuda na estabilidade do corpo.
Detalhe da cadeira presa por esticadores
A condição é mesmo muito segura, como o encaixe do corpo é bem justo e ainda tem o cinto, não dá a impressão de insegurança nas curvas. Basta inclinar levemente o corpo para o lado para fazer as curvas com segurança. E ela anda muito bem: o motor de quase mil cilindradas desenvolve 106 cv, suficiente para levar os 317 kg dela com desenvoltura. A adaptação da cadeira acrescenta uns 50 kg, e a cadeira mais uns 15. Mesmo assim há potência de sobra para levar o cadeirante e uma carona - esta é mais uma vantagem da Spyder, permite levar a cadeira e a carona com segurança e conforto. A sensação é de guiar uma moto mesmo, com o vento batendo no rosto e aquela sensação de liberdade que só um veículo aberto pode proporcionar. E mais uma vantagem sobre as motos: a Spyder tem marcha a ré! É possível fazer baliza e manobrar facilmente utilizando a ré.
A condução é como em uma moto
A Can Am Spyder adaptada tem apenas dois pequenos defeitos: o preço, bem puxado, em torno de 50 mil reais uma usada, e só carrega cadeira de rodas dobrável. O preço é alto porque ela é importada do Canadá e é um veículo de nicho, específico para diversão e lazer. O problema de carregar somente cadeira dobrável é um problema para fãs de carteirinha de cadeiras monoboloco, como eu. Acho cadeiras dobráveis muito desengonçadas, mais pesadas e visualmente carregadas, apesar que hoje em dia há cadeiras dobráveis mais bonitas e leves, como as da TiLite. Fiz um vídeo mostrando a Spyder e tentando passar um pouco da sensação ao pilotar, confiram abaixo (não reparem no estado da minha cadeira dobrável, está bem detonada). Obrigado por nos mostrar o veículo, Anderson!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Kart adaptado

Panda me passando as últimas instruções
Como todos sabem, sempre gostei muito de esportes radicais. E um desafio que me impus é voltar a praticar os esportes que pratiquei antes da lesão, agora adaptados, e incentivar (ou proporcionar) a outros deficientes praticá-los também. Um deles, que já estou tentando há algum tempo, é o Kart adaptado, conhecido como Parakart. Há campeonato em São Paulo, conheço alguns pilotos, mas aqui em Minas não havia nenhum competidor, muito menos opção de aluguel de kart adaptado em kartódromo. Até que conheci pelo Facebook o Panda, apelido do Ederson, único piloto mineiro de parakart.
Pista do Kartódromo Internacional de Betim
O Panda era piloto de motocross freestyle, daqueles que saltam, fazem manobras e levam o público ao delírio. E foi em um treino que ele se acidentou, quebrou a coluna no nível T9/T10, ficando paraplégico. Mas, assim como eu, não perdeu o gosto pela aventura e descolou logo um quadriciclo, para competir juntamente com o pessoal do Motocross, em Barbacena, onde morava. E o cara não brinca em serviço, foi campeão da categoria algumas vezes.
Panda ao lado do seu kart segurando o troféu
Em 2012 experimentou o kart adaptado, e com ajuda do pai, que é mecânico de moto, comprou e adaptou um kart. Buscou parceria com o Kartódromo de Betim para treinar e começou a se profissionalizar. Depois de muita luta e mais adaptações no seu kart, participou nos dias 11 e 12 de janeiro do Desafio Internacional das Estrelas, aquela corrida organizada pelo Felipe Massa em Penha, Santa Catarina. Há uma categoria de Kart Adaptado, e este ano contou com dez participantes, de todo o país. Foi a primeira competição oficial que o Panda participou, e ele já conquistou o segundo lugar! Foi uma grande vitória, e agora ele busca patrocínio para participar da Copa São Paulo de Kart Adaptado deste ano.
Entrada do Kartódromo
Curti muito a história do Panda, e fiquei doido para experimentar o kart adaptado. Combinei com ele no Kartódromo de Betim, seria também uma boa oportunidade para conhecer o kartódromo. Cheguei lá e já tive uma boa notícia, o kartódromo tem acesso para cadeirantes. A entrada é plana e tem estacionamento bem ao lado, porém não é demarcado para deficientes. Há vários boxes na área de briefing (orientações para a corrida) e em um deles há um amplo banheiro que eles estão adaptando!
Área de preparação para largada
A área dos pilotos, que conta com boxes e um depósito para cada um, também tem acesso. O único lugar ainda sem acesso é a recepção e a lanchonete, que ficam no segundo andar, e os proprietários disseram que há projeto para instalar um elevador. Para quem é piloto e tem o próprio kart, o kartódromo cobra um valor mensal pelo aluguel dos boxes e depósito, e a pista fica à disposição para treinos e corridas, dependendo da demanda do "indoor", as corridas com karts alugados. E aí que está meu interesse: adaptar um kart de aluguel para que um deficiente possa experimentar o parakart! E, se quiser, competir com os amigos. O fato é que um kart adaptado permite ao piloto correr praticamente de igual para igual com outros pilotos. Se todos forem inexperientes, a igualdade aumenta!
Comandos do kart adaptado, acelerador e freio à mão
Minha grande dúvida era: como transferir para o kart. O banco dele fica praticamente no chão, e há uma carenagem na lateral que deixa o banco ainda mais longe. O Panda me mostrou que não é tão complicado assim, mas que é impossível ir sozinho. Voltar então... Para ir, ele conta com o pai dele, que segura as pernas enquanto ele pula da cadeira para a carenagem, e depois para o banco. Aí o pai passa uma perna por cima do volante e acomoda no assoalho do kart. Ele passa um elástico por cima dos pés para garantir que não vão "pular" para fora em caso de colisão.  Uma vez acomodado, é só acelerar. A adaptação consiste em duas "aletas" atrás do volante, do lado direito fica o acelerador e do esquerdo o freio. Elas giram com o volante, o que garante que os comandos fiquem sempre à mão. Mais fácil que explicar é mostrar, e no vídeo abaixo, do "test drive" que fiz, dá para ver o kart adaptado em ação.
O Panda pretende agora participar da Copa São Paulo de Kart Adaptado, que é corresponde ao campeonato brasileiro. Só que para isto é preciso dinheiro. Gasta-se muito com transporte, pneus, gasolina, inscrição, hotel e alimentação. E o Panda não tem condições de arcar com tudo sozinho, então está em busca de patrocínio. Ele até elaborou um projeto bem bacana mostrando as vantagens que as empresas terão com a divulgação do nome, associação com o esporte adaptado e tudo mais. Vamos ajudar o Panda, clique aqui para baixar o projeto dele e divulgar para as empresas que puderem se interessar por esta oportunidade.
Agradeço ao Panda e à família dele pela recepção e oportunidade de experimentar e divulgar o esporte. E ao Kartódromo de Betim por apoiar a experiência e se interessar por difundir o kart adaptado.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Inhotim

Cadeirante pode curtir o Instituto numa boa!
No início de dezembro realizei uma vontade que já vem de anos: visitei o Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico Inhotim, em Brumadinho, a 55 km de Belo Horizonte. É um dos mais importantes museus de arte contemporânea do Brasil. Eu já sabia que o lugar tem uma certa acessibilidade, pois a Laura Martins, do blog Cadeira Voadora, fez dois ótimos posts sobre o lugar (vejam aqui), que li com antecedência para saber o que me esperava. Descobri nos posts da Laura que há uma jardineira elétrica lá que leva o cadeirante com cadeira e tudo para conhecer as obras, e ainda é gratuito.
Nossos companheiros de viagem, Leo e Iris
Aproveitamos a visita da Íris e do Leo, ambos de Brasília, para finalmente conhecer o instituto. Saímos num sábado nublado rumo a Brumadinho passando pelo posto Chefão e por Casa Branca (há pelo menos três caminhos para lá), em um caminho de quase 60 quilômetros. Escolhi este trajeto pela beleza, é uma estradinha sinuosa que passa pela beirada da cordilheira da Serra da Moeda, dá para ver algumas cidades lá de cima e tem alguns mirantes no caminho. Pouco mais de uma hora, chegamos ao Instituto.
A jardineira cabe o cadeirante com cadeira e tudo e até cinco passageiros
Chegando lá, há várias vagas para deficiente próximas à entrada, e basta solicitar a jardineira elétrica e te buscam rapidinho, te deixando na portaria, a poucos metros dali. Na portaria a gente paga a taxa para entrar no parque (R$ 28,00 em dez/13 - cadeirante não é isento, nem paga meia) e faz a solicitação da jardineira para um passeio de 50 minutos guiado. O ideal é reservar com antecedência, por telefone. A vantagem deste passeio é que você pode ditar a rota, passando pelas obras que mais te interessar. Recomendo traçar uma "volta olímpica" ao parque, pegando as atrações mais distantes da portaria. Há banheiro adaptado na recepção e nos restaurantes.
O visual do Instituto é um espetáculo
O Instituto é enorme, não tente ver tudo em um dia só - é impossível, ainda mais contando com o tempo de embarque e desembarque da jardineira. As obras são todas sensoriais - Inhotim, para mim, é uma experimentação para os sentidos. Desde o visual do lugar, com dezenas de tons de verde, às obras que mexem com a audição, e até como tato. Algumas obras não tem indicação para cadeirantes, como a Galeria Cosmococa, que tem vários ambientes com texturas diferentes no chão, de almofadas a uma piscina, tudo para sentir com os pés. Mas vale a visita para viajar nas pessoas se divertindo.
Cadeira Off Road que eles emprestam. Tem até amortecedor traseiro!
Como há muitos caminhos "tortuosos", muitos deles com grama e pedras, eles emprestam cadeiras "off road". São cadeiras com rodas traseiras de mountain bike, suspensão no eixo traseiro e rodas dianteiras grandes e infláveis. As dianteiras tem até um extensor, creio que para não virar para trás. Elas são pesadas, mas dão conta do recado. Rodei por bloquetes, pedras, grama e até terra, sem agarrar. Em alguns lugares só consegui subir com ajuda, mas no entorno da portaria é tranquilo. E foi por ali que iniciei o passeio, em direção à obra de Zhang Huan, um artista chinês. Demos uma volta ao lago que fica atrás da portaria, onde pudemos ver várias outras obras, de Edgard de Souza, Paul McCarthy, Hélio Oiticica e Yayoi Kusama, e a galeria Marcenaria.
Invenção da Cor, de Helio Oiticica (foto do Leo)
Voltamos para a portaria bem na hora do passeio de jardineira. Iniciamos o passeio em direção à galeria de Adriana Varejão. A cada obra, a jardineira para e aguarda o pessoal voltar. Esta galeria tem três andares e não tem elevador, portanto só dá para conhecer o primeiro andar, e o terceiro, se você animar dar a volta por trás. Não animei, mas acho que valeu pelo visual em frente à galeria. De lá fomos para a Cosmococa (já falei dela), e aí para a de Carlos Garaicoa (uma maquete feita de velas), passando no caminho por obras ao ar livre, como Giuseppe Penone e Chris Burden (muito legais).
Viewing Machine, de Olafur Oliasson
Depois disso pegamos um temporal em um trecho de mata fechada, que eu comentei dizendo que era a obra "Tempestade na Floresta", bem interativa! Hehehe. Chegamos sob chuva forte à Galeria Psicoativa Tunga, que hesitei em sair da jardineira, porque além da chuva, o caminho é de terra, e estava pura lama. Ah, não falei, mas eles emprestam um guarda chuvas grande nestes casos. Iris e Leo desceram e ficamos lá, mas não resisti, já estava meio molhado, e encarei a lama. Valeu a pena, esta galeria é incrível.
Há vários bancos de madeira espalhados pelo Instituto
De lá, voltamos até a obra "The Murder of Crows", com 98 alto falantes contando um pesadelo, imperdível. Essa dá para viajar. Resolvemos dispensar a jardineira e fazer o resto a pé e passamos pelo caleidoscópio de Olafur Eliasson, bem interessante, e pela galeria Praça, que também valeu a pena. Almoçamos (ou quase jantamos) no restaurante Oiticica, um self service de boa qualidade e acessível para cadeiras de rodas.



Algumas panorâmicas de Inhotim tiradas pelo Leo
A avaliação final é que vale a pena e é ótimo para cadeirantes, mas para uma experiência mais completa e divertida, recomendo ir com alguém que aguente empurrar a cadeira em pontos íngremes e esburacados. Pretendo voltar para conhecer o resto! Agradeço à Iris e ao Leo pela companhia e força. Ah, e principalmente ao Leo pelas panorâmicas!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Pousada Monsieur Rocha

A varanda na entrada é muito gostosa
Sabendo que o arquipélago de Fernando de Noronha já é famoso por ser um lugar rústico e preservado, não esperava encontrar acessibilidade perfeita em lugar nenhum. Ao buscar hospedagem adaptada para deficientes, encontrei poucas opções em sites de hotéis como Booking e Hotel Urbano. Ai apelei para o Dr. Google, e em uma busca direta por pousada adaptada em Noronha encontrei o blog O Viajante Especial, da Adriana Braun, que foi uma das primeiras cadeirantes a visitar o arquipélago. Lá ela faz avaliação de algumas pousadas da ilha, e uma delas me chamou a atenção pela localização e charme, a Monsieur Rocha. Pela descrição da Adriana, a pousada estava em processo de adaptação, mas já tinha estrutura suficiente para receber um cadeirante com algum conforto.
Hall na entrada, com sala de leitura ao fundo
Busquei ainda outra fonte para encontrar a pousada ideal, a Econoronha. Me deram oito opções de pousadas adaptadas para deficientes: Beco de Noronha, Monsieur Rocha, Topazio, Mar Atlântico, Tia Zete, Triboju, Zé Maria e Dolphin. Procurei no Booking.com para maiores detalhes, e depois de descartar as carérrimas, fiquei entre a Monsieur e a Topazio. Acabei decidindo pela primeira pelo preço, negociei direto com o pessoal de lá e o valor caiu em um quarto. Todas elas tem incluso no preço o traslado do aeroporto.
Chegando ao aeroporto, o Sr. Rocha, proprietário da pousada, nos buscou. Ele tem um exótico e raro jipe 4x4 indiano da Mahindra. O carro é alto, um pouco difícil de subir, mas confortável, com ar condicionado e tudo. Chegando na pousada, me assustei um pouco com a rua, toda esburacada. Mas a localização é mesmo muito boa, próxima ao centro, com bares e restaurantes. E descobri que logo na esquina de baixo passa uma linha de ônibus.
As mesas são ótimas e o café da manhã uma delícia
A pousada é muito charmosa, com redes na varanda, mas uma enorme rampa na entrada. Muito difícil de subir sozinho, mas é possível cortar caminho pela garagem. Há sofás e uma mesinha no hall da entrada, e ainda uma sala de leitura, com muitos livros em uma estante. O café da manhã é simples, mas muito gostoso. Para chegar no refeitório, há um degrau, mas o Sr. Rocha fez uma rampa por fora, dando a volta. Se estiver chovendo, como estava em um dia pela manhã, molha um pouco. As mesas são excelentes, altas e com pés paralelos, entra facilmente a cadeira de rodas.
O banheiro é bom, mas faltam itens básicos, como cadeira de banho
O quarto é bem grande, há três camas, uma de casal e duas de solteiro, e a circulação é ótima. Tem frigobar e uma TV de meia polegada - tá bom, quatorze polegadas - mas a verdade é que ninguém vai a Noronha para ver novela. O banheiro é muito grande, o espaço lá dentro é bom, pia sem armários embaixo, e o box é muito grande. Falta cadeira de banho mas a porta do box é larga e passa a cadeira de rodas. Com uma cadeira de plástico lá dentro, dá para transferir e tomar banho. Foi o que fiz.
O Sr. Rocha foi muito simpático conosco e ouviu minhas queixas sobre acessibilidade da pousada, e prometeu melhorar na medida do possível. Entendo que é muito difícil chegarem itens no arquipélago, mas se chega avião, chega encomenda. Basta boa vontade.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Fernando de Noronha para cadeirantes - Parte 4

Com Marcelo, Bodão e Jorge, da Águas Claras
Agora finalmente vou falar sobre o que há de melhor para fazer em Fernando de Noronha - mergulhar! Já falei um pouco no primeiro post, foi uma das primeiras coisas que fiz por lá, e se o primeiro mergulho, que foi com snorkel, já me impressionou com a presença de várias tartarugas e até um tubarão, imaginem o que me esperava nos mergulhos com cilindro.

Golfinhos acompanhando o barco
Mas antes vou contar mais sobre mergulhos livres em Fernando de Noronha. O segundo mergulho livre que fiz lá foi em um passeio de barco - que recomendo que seja feito logo nos primeiros dias, para ter uma visão geral da ilha. Há vários tipos de passeio de barco na ilha, com durações diversas. Recomendo o passeio de três horas com parada para mergulho na praia do Sancho. Fiz com o barco Na Onda I, custou noventa reais e foi bem divertido. O guia é uma figura e conta altas histórias de Noronha, de micos de artistas a lendas da ilha. Ele também se propôs a me acompanhar no mergulho, mas dispensei por ser "mergulhador experiente". Modesto... Para quem não é tão "abusado", não precisa nem saber nadar, usando um colete eles te puxam com a boia. Durante o passeio, muitos golfinhos vão nadando ao lado do barco, bem pertinho. Pena que no mergulho eles não apareceram... Fiz um vídeo com o mergulho no Sancho, dá para ter uma noção do quanto parece que estamos em um aquário, de tão limpa que é a água. Vejam abaixo.

Outro mergulho imperdível, o melhor com snorkel, foi no naufrágio do navio grego Eleani Stathatos, partindo da praia do Porto. Este é outro mergulho que precisa ser guiado, combinamos lá com o guia Francisco, que pediu trinta mas fechou por vinte e cinco reais por pessoa. O problema deste mergulho é o acesso, não há nenhum acesso para cadeira de rodas para a praia do Porto, e a areia é muito fofa. A solução que encontramos foi pedir ao responsável pelo controle de entrada para entrarmos com o Bugue até perto da água. Como disse antes, o pessoal da ilha é muito solícito, não só deixaram a gente entrar como empurraram o Bugue quando ele atolou...

Praia do Porto de Santo Antônio - praticamente um cartão postal
Depois de descer do Bugue e combinar o mergulho com o guia, os outros guias que estavam por lá ainda me ajudaram a chegar na água, carregando. Falei que não precisava, mas insistiram... O mergulho foi incrível, com base na tabela de marés da ilha (toda pousada tem uma) escolhi o melhor horário e pegamos a maré baixa, deu para chegar ao lado do naufrágio só mergulhando em apnéia. Vi cardumes enormes, de peixes também enormes, tanto que quase tampavam a vista da gente. E o navio também é muito grande, são 160 metros de casco, com peças de motor, guinchos, rodas de trem (!) e um pouco do que sobrou da parte interna. Tudo muito lindo. Infelizmente não gravei este mergulho.

Descendo para o barco por rampa, sem stress
Para o mergulho autônomo, com cilindro, escolhi a operadora Águas Claras, por indicação da Mar a Mar, que me disse que o tratamento lá seria mais humano, mais individualizado. E para um cadeirante, isto faz a diferença. Fiz o contato com antecedência e expliquei minhas necessidades. Me garantiram que não teria problema, pois já haviam operado com cadeirantes. Mas ao chegar lá descobri que a sede não tem acesso para cadeirantes, só uma escada na porta. Vieram me atender no Bugue, problema resolvido, mas fica a dica: se adaptem, faz a diferença para o cliente. Minha intenção inicial era fazer o check out lá em Noronha, mas depois que resolvi fazer em Arraial do Cabo, marquei duas saídas de mergulho. Achei o preço salgado, quase quatrocentos reais cada saída. Negociei, negociei, e fechamos por setecentos as duas.

Entre milhares de peixes, a sensação é indescritível
Combinei o primeiro mergulho para a parte da tarde, e um pouco antes apareceu na porta da pousada um caminhãozinho tipo pau de arara com uma galera atrás e o motorista, uma figuraça conhecido como Bodão, uma lenda do mergulho na ilha, tanto que tem até um adesivo "Eu mergulhei com o Bodão!". Tive uma certa dificuldade para subir, o bicho é meio alto, mas com uma mão do Bodão deu tudo certo. No segundo dia pedi para me mandarem um carro menor, e atenderam com presteza, mandando um táxi. Recomendo pedir de cara, para não passar perrengue. Chegando ao porto, depois de conhecer o pessoal, parti para o embarque, que foi bem tranquilo, descendo pela rampa do porto e subindo pela escadinha do barco. Mais uma vez, o pessoal foi muito legal comigo.

Belas cores, contrastes e animais! Com visibilidade total!
Na primeira saída, meu guia foi o Lula e fomos para o ponto chamado Buraco do Inferno, a 12 metros de profundidade no primeiro mergulho, e para a Cagarras Rasa, a pouco mais de vinte metros, no segundo. Lugares incríveis, com visibilidade de até 50 metros. Com pouco tempo de mergulho já me deparei com um tubarão de mais ou menos um metro de comprimento, se alimentando no fundo. O Lula ficou ao lado chamando o pessoal para ver, eu fui o único a ir em direção a ele, quando estava chegando perto o tubarão se virou para o meu lado e passou embaixo de mim, a poucos centímetros! Vi também moreias, cardumes enormes e uma lagosta do tamanho de um cachorro. Ela se escondeu logo, mas só as antenas de fora já metiam medo.

Pronto para ir para o fundo!
No segundo dia, peguei o horário da manhã, achei até melhor. Meu guia foi o Marcelo, um brasiliense radicado na ilha muito gente boa. Ele quis me levar sozinho no primeiro mergulho, e fomos para a Ressureta. No segundo fui com a galera, passamos pela Ilha do Meio, e vimos uma plataforma muito linda, com muita vida marinha, por todo lado. A gente se enfiava por baixo dela para ver os bichos maiores. Tomei um susto, fui visitar uma moreia em um lugar escuro, quando alguém bateu uma foto com flash foi que percebi que ela era enorme e estava a um palmo da minha cara! Show!! Não consegui filmar tudo, algumas vezes a câmera, que estava na minha cabeça, batia em algum lugar e ficava virada para cima. O maior tubarão que vi, com aproximadamente um metro e meio nadando no fundo, só saiu a barbatana. O que consegui filmar, editei e compartilho no vídeo abaixo. Espero que gostem.


Fernando de Noronha é realmente a meca do mergulho no Brasil. Quem vai para lá, não pode perder esta experiência incrível. A vida marinha é diversificada e numerosa, a visibilidade é absurda e as águas são calmas. E é fácil mergulhar, até para quem tem limitação!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Fernando de Noronha para cadeirantes - Parte 3

O museu tubarões é muito bom
Continuando minha jornada por Fernando de Noronha, um programa um pouco mais cultural é conhecer o Museu dos Tubarões. Mesmo porque eu queria conhecer um pouco mais sobre eles antes de mergulhar junto... Fica próximo à capela de São Pedro, ao porto e ao posto de combustíveis (único da cidade). O museu tem informações interessantíssimas sobre este temido predador dos mares, que pode te deixar com menos medo dele - ou mais, dependendo do que ler. Lá descobri que o tubarão é somente o décimo animal que mais mata no mundo, e que o primeiro lugar, por incrível que pareça, é de um animal bem menor - o mosquito. Nem é tão incrível assim, afinal só no Brasil o mosquito da dengue mata gente pra caramba. Por outro lado, o Brasil é o terceiro país com mais mortes por tubarão. E Pernambuco é o estado campeão. Nada animador...

Objetos e obras de arte nos fundos do museu
Informações e temores à parte, há no museu dezenas de arcadas dentárias de tubarões, das mais diversas espécies, e esqueletos completos de algumas espécies. Algumas bocas são beeeem grandes, cabe fácil uma pessoa sentada lá dentro. Há também diversas lembrancinhas relacionadas ao tubarão, desde pelúcias a miniaturas em prata. E para completar tem um restaurante, onde servem bolinhos de tubalhau, coxinha de tubarão e outros petiscos com a carne do predador. Comi os bolinhos e meu amigo Fabrício pagou caro - doze reais - em uma coxinha de tubarão. A carne é boa, lembra um pouco a de cação. Nunca comeu cação? Sinto muito, não tenho outra comparação... Nos fundos do museu há alguns objetos de barcos e esculturas muito bonitas. No por do sol dão um efeito muito legal.
Polvo ao molho de caju do Mergulhão
Além das paisagens belíssimas e praias perfeitas, Fernando de Noronha é um paraíso turístico também para gastronomia. Há restaurantes famosos, peculiares, elaborados e caros, muito caros. Com as dicas da minha colega de trabalho Dalini, fui eliminando um por um os restaurantes indicados. O que mais gostei foi o Varanda, onde comi um delicioso bobó de lagosta, imperdível. Comi também um risoto de frutos do mar maravilhoso. Em segundo lugar, o Mergulhão, que fica bem em frente ao porto, onde comi um polvo ao molho de caju incrível, a mistura do sabor do polvo com o adocicado caju proporcionam uma sensação inédita na boca. Outro prato muito bom que comi lá foi um tartar de atum com gergelim, e a Gi comeu bobó de camarão, excelente.

Belíssima vista do restaurante Mergulhão
Um outro prato que fiz questão de experimentar por lá foi o Tartar de Atum Marinado do restaurante da Pousada Maravilha. O visual da pousada é magnífico, conta com uma piscina com borda infinita e de quebra tem a baía do Sueste ao fundo. O restaurante é aberto ao público, mas é preciso fazer reserva. Quando estive lá dei sorte de chagar cedo e nos deixaram entrar. Não é tão caro quanto pensei, mas não espere gastar menos de 60 reais por pessoa em nenhum destes restaurantes.

Vista da piscina da Pousada Maravilha
Mais uma boa dica gastronômica é o restaurante da Pousada Teiju-Açu, que é o nome de um lagarto da região. Foi lá que os noivos, meus amigos que se casaram na ilha, receberam os convidados, portanto comi vários petiscos, frutos do mar gratinados e um peixe na folha de bananeira delicioso. Esse último prato é servido também na Barraca das Gêmeas na praia da Caçimba do Padre. Fantástico. Todos os restaurantes visitados são parcialmente acessíveis, em alguns há um degrau na porta, e nenhum encontrei banheiro para deficiente. Portanto, faça as necessidades antes de sair de casa e vá de coletor de perna.

Jantando delícias no Restaurante Varanda
Mas nem tudo são flores. No penúltimo dia em Noronha, caímos em uma armadilha. Por indicação de uma fotógrafa, fomos ao restaurante mais caro de nossa visita, o Palhoça da Colina. Nos disseram que é de um chef famoso em todo Brasil e até lá fora. Fomos ansiosos para conferir as iguarias do chef, e nos deparamos com farofa pronta (sério, ele teve coragem de falar), batatas e bananas cozidas, e um atum enorme muito sem gosto. E para fechar, uma bola de sorvete Kibon para cada um. Tudo isso por apenas 120 reais por pessoa. Ai que ódio. Saímos dali e fomos para um boteco no centro tomar cerveja e rir - de raiva -  de tudo. Fiquem longe deste.
Outros restaurantes que me recomendaram e não tive tempo ($$) para visitar, foram o Zé Maria, Tribuju e Beijupirá. No próximo - e último - post sobre Noronha vou falar sobre os mergulhos que fiz na ilha! Aguardem!

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