domingo, 23 de março de 2014

Cuidador para cadeirante

Grande exemplo de cuidador "gente boa" no filme "Intocáveis"
As limitações que uma deficiência trazem são únicas para cada pessoa, o que causa um grau maior ou menor de dependência. Geralmente tetraplégicos tem maior dependência do que paraplégicos, mas mesmo isso varia de caso para caso e há tetraplégicos totalmente independentes. Mas há deficiências que, por suas características próprias, demandam acompanhamento constante. Quando o deficiente tem uma limitação severa, ele precisa de ajuda todos os dias, muitas vezes até mesmo para sair da cama. Em um caso assim, é fundamental contar com alguém para ajudar na manhã seguinte, senão a pessoa nem da cama sai. A família geralmente é a solução, porém é muito complicado para qualquer um hoje em dia parar toda a rotina para cuidar de alguém. As pessoas precisam trabalhar, sair, viajar, e não dá para ficar "por conta". O que acontece muitas vezes é o "revezamento", cada um dedica parte do dia ao cuidado. Ou então o companheiro (a) faz as vezes de cuidador. Mas e quando há imprevistos? Não dá para depender disso. Nestes casos, a solução é contratar um cuidador.
Minha "cuidadora" é minha mulher!
Mas contratar um cuidador não é tarefa fácil, é preciso ser alguém com experiência, pois dadas as limitações em questão, muitas vezes é necessário até conhecimentos de enfermagem ou medicina. É preciso ser alguém de confiança, pois vai passar muito tempo na casa da pessoa, vai lidar com momentos íntimos, sem contar a possibilidade de abuso, que infelizmente ainda existe. Às vezes o fator confiabilidade pesa muito mais que a experiência. Então, como contratar alguém? Quantos contratar para ter a segurança de ter alguém 24 horas? Quanto pagar? E até mesmo, como viajar de férias ou a estudos e levar alguém que dê segurança tendo tão grande dependência? Estas perguntas são individuais e dependem das necessidades de cada um. Nunca precisei de cuidador, mas o que percebo é que muitas vezes as pessoas contratam por indicação, já que o fator confiança é importante. Mas nada impede de encontrar aquela pessoa que vai encaixar com nossas necessidades. Só tem que procurar, e dar um pouco de sorte.
Esses dias tive contato com dois cadeirantes, um homem e uma mulher, com este mesmo problema, contratar um cuidador. E os dois moram sozinhos. Ele tem 25 anos, mora em Aracaju e tem uma deficiência chamada Artroghiphoses, que impede que alguns músculos se fortaleçam e encurta certos tendões dos membros, é uma doença que possui várias "versões" e a dele afetou os membros superiores e inferiores. Ele não tem o desenvolvimento dos músculos que o ajudem a levantar o braço para lavar a cabeça por exemplo e a mão não consegue esticar toda, na verdade o tendão a puxa para baixo e suas pernas já sofreram certas e longas cirurgias para melhorar sua forma. Hoje ele conta com um cuidador, e está em busca de outra pessoa. O e-mail dele é oscarlwr@gmail.com, se alguém souber de alguém, entra em contato.
Aline é de BH e precisa de cuidadora
Ela se chama Aline, tem 35 anos, mora em Belo Horizonte e é Jornalista, Relações Públicas e Especialista em Marketing (uau, quanta coisa); ela sofreu lesão medular nas vértebras C4, C5, C6 por acidente automobilístico há quatro anos e dois meses; tem pouca mobilidade física, e usa cadeira motorizada. Ela precisa de cuidados 24 horas por dia, na realização das atividades do dia a dia como higiene pessoal, auxilio na higienização do apartamento e das cadeiras, cama hospitalar, roupas além dos cuidados com a alimentação. Os cuidados se estendem no acompanhamento médico. Ela conta hoje com duas cuidadoras no regime 24 x 24 horas, e está em busca de uma substituta para uma delas, que sai em maio. As peculiaridades da lesão medular como cateterismo e transferência são ensinadas por ela.
Como já percebi que muitos posts do blog servem como ponte de contato entre pessoas, sugiro que quem tiver interesse no assunto, que esteja precisando de um cuidador ou que seja cuidador oferecendo seus serviços, dê o contato nos comentários, dizendo de que cidade é. Se você sabe do contato de alguém de confiança, pode deixar também. Ou então, se não quiser que fique exposto, envie para o e-mail do blog (blog.cadeirante@gmail.com), terei prazer em colocar as pessoas em contato.

quarta-feira, 12 de março de 2014

TCC - Acessório para carro adaptado

O que pode melhorar?
Um grupo de alunos da disciplina Desenvolvimento de Produtos do 6º período de Engenharia de Produção do Instituto Metodista Izabela Hendrix está fazendo uma pesquisa  para a criação de um acessório para carro com foco no público portador de necessidades especiais.
Uma das integrantes é minha amiga e ela pediu que eu usasse o blog para ouvir a opinião de vocês.  
Assim, galera que puder contribuir, bota a boca no trombone... quem sabe não vira realidade a partir deste trabalho escolar?
Responda: 
Que acessório poderia ter no seu carro e que facilitaria a sua vida? Pense em algo que não exista no mercado.

sábado, 8 de março de 2014

Mini Bike E5

Mini ergométrica portátil!
Desde que conheci a Krankcycle, apresentado pelo meu amigo Gregori, fiquei apaixonado pela ideia de poder fazer exercício em casa quando quiser e o quanto quiser. Mas a Krankcycle tem um pequeno defeito: o preço, mais de cinco mil reais. Desde então eu tenho pesquisado alternativas mais baratas para fazer exercício sem ter muito trabalho. Ou dar trabalho para alguém.
Nunca fui muito fã de academia, acreditava que fazendo esportes eu tinha muito mais prazer e o mesmo efeito. E o meu esporte preferido era a bicicleta, pela liberdade que ela proporciona. Quando virei cadeirante e descobri a handbike, acreditei que era a alternativa para minha sede de exercícios. E realmente é, só que não é tão simples para usar. Por ser muito baixa, é difícil a transferência e ainda corre mais risco na cidade por ser mais difícil de ser vista pelos motoristas. Por isso, prefiro utilizar ciclovias ou estradas mais vazias, só que aqui em BH é preciso pegar o carro para encontrar uma boa ciclovia. De onde moro, a mais próxima está há uns dez quilômetros. Assim, o uso da handbike fica restrito aos fins de semana.
Fazendo exercício no conforto de casa
E depois de muito procurar finalmente descobri uma alternativa bem mais barata que a Krankcycle: a Mini Bike E5. É uma mini ergométrica portátil que pode ser utilizada com as pernas ou com as mãos, no chão ou em cima de uma mesa. Ou até em um sofá, por ser pequena pode ser utilizada em vários locais. Eu prefiro utilizar no sofá, pois além da força com os braços para pedalar, é preciso forçar o abdômen para manter o corpo ereto. São dois exercícios em um!
Ah, mas o melhor guardei para o final. O preço! Encontrei essa Mini Bike à venda no Walmart por 219,00 reais! Bem mais em conta que o Krakcycle, não é? E cumpre o que promete, a Gi, minha esposa, coloca no chão e pedala por quinze minutos a meia hora, e eu coloco em cima do sofá e faço meus exercícios! Ela conta ainda com um visor de LCD que mostra diversas informações sobre o exercício feito, como tempo, distância percorrida, número de pedaladas e calorias consumidas. Isso é importante para estabelecer metas, como pedalar quinze minutos ou mil pedaladas por dia. Estou curtindo muito a Mini Bike, fiz um vídeo mostrando ela em ação, curtam abaixo!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Como medir um cadeirante

Haja fita métrica pra mim!
Essa semana recebi a seguinte dúvida de um leitor: como medir um cadeirante? Quem perguntou foi o Aldenir, professor de Educação Física que se deparou com este problema. Acredito que a maior dúvida dele é como fazer isto sem uma cama ou maca por perto, com a pessoa na cadeira mesmo. Depois que virei cadeirante, me medi umas duas ou três vezes, para ver se eu tinha encolhido. E encolhi mesmo! Perdi alguns milímetros por causa do acidente, afinal minha vértebra T2 explodiu, e além disso, a pessoa sentada o tempo todo, sem alongar, sem levantar, pode encolher um pouco com o passar dos anos. Eu já perdi dois centímetros, tinha 1,95m antes do acidente, e na última medição, que no meu caso faço de pé mesmo, deu 1,93m. Essa técnica é até engraçada, eu fico de pé com as talas nas pernas e a Gi pega uma cadeira (tem que ser cadeira mesmo) e fica na ponta dos pés para alcançar minha cabeça com uma trena.
Na impossibilidade de deixar o paciente de pé, qual a alternativa? Para responder a esta pergunta recorri à minha ex-super-fisioterapeuta Andrezza Rodrigues, que me deu a seguinte resposta:
"Você deita o paciente bem retinho na cama (o ideal seria uma maca) faça um risco no topo da cabeça marcando na maca e outro risco no calcanhar com as pernas bem esticadas e a ponta dos dedos voltadas para trás. Peça ao cadeirante para sair do local marcado e meça a distância de um traço ao outro.
A outra forma é: primeiro medir as pernas hiper estendidas; calcanhar à espinha iliaca antero superior (EIAS); depois a cabeça do úmero até a EIAS, e por ultimo a cabeça."
Ela prefere a primeira forma, acha mais fidedigno. Fiz o teste na cama e deu em cima, 1,93m. É muito metro de homem... Esse tamanho todo às vezes ajuda, às vezes atrapalha. Só minhas pernas tem 1,04m, e sem movimento, tem hora que é um parto "trazer" elas junto comigo. Passar elas por baixo do voltante ao entrar no carro é sempre complicado. Por outro lado, para pegar coisas no alto, meus dois metros de envergadura (braços abertos) ajudam muito.
Agradeço à Andrezza pela explicação e pela contribuição! Agora já sabem: qualquer dúvida, perguntamos para tia Andrezza!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Empresa aérea deve atender necessidades de deficientes físicos

Devemos exigir nossos direitos sempre
Ultimamente tenho lido muitos relatos de cadeirantes reclamando do tratamento recebido por companhias aéreas. Eu mesmo já passei muita raiva e alguns perrengues em viagens pelo Brasil. Em uma delas, perderam uma almofada Roho minha, e eu entrei na justiça, recuperando o valor da almofada e ainda um acréscimo por danos morais. Muita gente deixa de entrar na justiça por acreditar que o caso não se aplica ou que tem pouca chance de ganhar. Para estas pessoas, falta uma consultoria jurídica para orientação. Agora o Blog do Cadeirante conta com uma parceria jurídica. O advogado Lucas Brito fará postagens por aqui sempre que alguém tiver alguma dúvida relevante ou importante. Espero que gostem!
"O Código de Defesa do Consumidor estabelece que o fornecedor de serviços, ao se instalar no mercado de consumo, deve dispor de todo aparato tecnológico e humano, de modo a garantir atendimento adequado e eficaz ao consumidor, evitando constrangimentos indevidos, sob pena de responder pelos danos causados.
E quando o assunto é a prestação de serviços de transporte aéreo, notadamente quando o serviço é prestado para passageiros com necessidades especiais, as empresas do setor devem estar preparadas para garantir a esse passageiro um atendimento adequado e eficaz, devendo seguir à risca as regras estipuladas pela Agência Nacional de Aviação (Resolução nº 009 de 05 de junho de 2007).
Entretanto, a realidade passa longe daquele atendimento adequado e eficaz estabelecido pelo CDC e pela ANAC. O que se verifica na prática é o total desrespeito àquelas pessoas que necessitam de cuidados especiais para embarcar e desembarcar das aeronaves. E a insatisfação com o tratamento dado pelas Companhias aéreas a esses passageiros cresce a cada dia. Basta uma simples consulta às redes sociais para constatar essa indignação e entender as dificuldades enfrentadas.
Uma das falhas das Companhias aéreas é não bloquear pelo menos um assento destinado ao passageiro com necessidades especiais. Explico: Não é novidade que os passageiros com dificuldades de locomoção precisam de assentos junto aos corredores, dotados de braços removíveis, localizados nas primeiras fileiras. Ora, se o passageiro, ao comprar seu bilhete, informou que tinha esta necessidade, qual é a razão de não se bloquear pelo menos um assento para uso dele, de modo a evitar que terceiros, sem necessidade, ocupem o lugar? Essa simples medida evitaria o constrangimento do passageiro com restrições de locomoção ter que tomar um lugar inadequado, para posterior reacomodação.
Outra falha que causa indignação é o despreparo dos funcionários da Companhia aérea acerca das regras da ANAC, que tratam do acesso ao transporte aéreo de passageiros com necessidades especiais. Por favor, me corrijam se estiver errado, mas tenho convicção de que não é o passageiro que deve informar seus direitos aos funcionários da empresa. Pelo contrário, o correto é o passageiro receber todas as informações acerca dos seus direitos naquele voo.
Ademais, é sabido e notório que a empresa aérea deve disponibilizar veículo equipado com elevador para efetuar, com segurança, o embarque do passageiro com restrição de locomoção, principalmente se a aeronave estiver estacionada em posição remota. Qualquer tentativa dos funcionários da empresa aérea em erguer o passageiro não comparece procedimento seguro, o que deve ser rechaçado de plano por aquele passageiro com necessidades especiais que pretende viajar de avião.
E veja, um passageiro com necessidades especiais enfrentou todas essas falhas que acabei de comentar, ao viajar por um trecho Brasília – São Paulo. Indignado, ajuizou ação contra a Companhia aérea, o que acarretou na condenação da empresa em R$4.000,00 por danos morais. E olha o que disse a Juíza do Juizado Especial do Consumidor ao julgar o caso:
"o autor foi exposto a todo constrangimento diante dos demais passageiros ao fim de ver atendidos os seus direitos de portador de necessidades especiais, tendo de se submeter às ordens do comandante e ficar na poltrona 1-B, além de ser exposto a vexame, como se o outro passageiro reacomodado estivesse fazendo uma gentileza, e não simplesmente cumprindo o determinado pelo art. 30 da Resolução nº 009 da ANAC". (TJDFT. Processo: 2013.01.1.058045-0)
A 1ª Turma Recursal do TJDFT confirmou a decisão. 

Um abraço e até a próxima.
Lucas Brito


* Obs. : o termo "portador de necessidades especiais"  é utilizado pela ANAC por entender tratar-se de deficientes, idosos e outros. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Can Am Spyder adaptada para cadeirantes

Can Am Spyder com a cadeira de rodas, e o Anderson ao lado
Já mostrei aqui o triciclo elétrico Tribike que utilizo no dia a dia e se parece com uma moto, tem a cara e o porte de uma Biz. Ela é preparada para rodar no trânsito, é ágil e silenciosa, e para quem curte tem um gostinho de moto, aquele ventinho na cara e sensação de liberdade. O problema é que não dava para levar a cadeira de rodas junto, mas acabei resolvendo a parada com dois mosquetões. Funciona, mas a cadeira sofre absorvendo as irregularidades do asfalto. Não é tão ruim, pois o Tribke não corre muito, anda em média a 25 km/h. É um veículo legal, dá para sentir um pouco a sensação de moto, mas fica devendo...
Can Am Spyder 990 Rotax
E eis que descobri um outro veículo muuuuito mais legal que o Tribike, um triciclo de grande porte com duas rodas na frente e com alta cilindrada e muita tecnologia:  a Can Am Spyder! Eu já havia visto nas ruas, imaginei que seria possível um cadeirante guiar, mas não imaginava que poderia ser um veículo autônomo! Considero um veículo autônomo aquele que permite a um cadeirante sair sozinho, chegar a algum lugar e passar para a cadeira sem ajuda de ninguém. Enfim, independência para sair e ir para qualquer lugar.
A adaptação que permite levar a cadeira de rodas
Até que vi uma foto de um amigo de BH, o Anderson Cobra, com uma Spyder adaptada para deficiente! A adaptação é uma caixa de metal fixada na lateral da Spyder onde ele encaixa a cadeira de rodas. O câmbio dela é semi automático, é necessário passar as marchas na mão, em uma alavanca abaixo do punho esquerdo, semelhante ao câmbio das bicicletas: com o dedão a gente sobe as marchas e com o indicador reduz, mas a redução, se não for feita, é automática. Muito fácil de guiar e extremamente estável, a Spyder transmite muita segurança. A adaptação é parafusada ao quadro da Spyder e a cadeira de rodas dobrada é fixada por esticadores. O freio passou do pé para o punho direito, e além disso há uma plataforma para apoiar o pé, evitando que se solte. E para completar, um cinto de segurança ajuda na estabilidade do corpo.
Detalhe da cadeira presa por esticadores
A condição é mesmo muito segura, como o encaixe do corpo é bem justo e ainda tem o cinto, não dá a impressão de insegurança nas curvas. Basta inclinar levemente o corpo para o lado para fazer as curvas com segurança. E ela anda muito bem: o motor de quase mil cilindradas desenvolve 106 cv, suficiente para levar os 317 kg dela com desenvoltura. A adaptação da cadeira acrescenta uns 50 kg, e a cadeira mais uns 15. Mesmo assim há potência de sobra para levar o cadeirante e uma carona - esta é mais uma vantagem da Spyder, permite levar a cadeira e a carona com segurança e conforto. A sensação é de guiar uma moto mesmo, com o vento batendo no rosto e aquela sensação de liberdade que só um veículo aberto pode proporcionar. E mais uma vantagem sobre as motos: a Spyder tem marcha a ré! É possível fazer baliza e manobrar facilmente utilizando a ré.
A condução é como em uma moto
A Can Am Spyder adaptada tem apenas dois pequenos defeitos: o preço, bem puxado, em torno de 50 mil reais uma usada, e só carrega cadeira de rodas dobrável. O preço é alto porque ela é importada do Canadá e é um veículo de nicho, específico para diversão e lazer. O problema de carregar somente cadeira dobrável é um problema para fãs de carteirinha de cadeiras monoboloco, como eu. Acho cadeiras dobráveis muito desengonçadas, mais pesadas e visualmente carregadas, apesar que hoje em dia há cadeiras dobráveis mais bonitas e leves, como as da TiLite. Fiz um vídeo mostrando a Spyder e tentando passar um pouco da sensação ao pilotar, confiram abaixo (não reparem no estado da minha cadeira dobrável, está bem detonada). Obrigado por nos mostrar o veículo, Anderson!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Kart adaptado

Panda me passando as últimas instruções
Como todos sabem, sempre gostei muito de esportes radicais. E um desafio que me impus é voltar a praticar os esportes que pratiquei antes da lesão, agora adaptados, e incentivar (ou proporcionar) a outros deficientes praticá-los também. Um deles, que já estou tentando há algum tempo, é o Kart adaptado, conhecido como Parakart. Há campeonato em São Paulo, conheço alguns pilotos, mas aqui em Minas não havia nenhum competidor, muito menos opção de aluguel de kart adaptado em kartódromo. Até que conheci pelo Facebook o Panda, apelido do Ederson, único piloto mineiro de parakart.
Pista do Kartódromo Internacional de Betim
O Panda era piloto de motocross freestyle, daqueles que saltam, fazem manobras e levam o público ao delírio. E foi em um treino que ele se acidentou, quebrou a coluna no nível T9/T10, ficando paraplégico. Mas, assim como eu, não perdeu o gosto pela aventura e descolou logo um quadriciclo, para competir juntamente com o pessoal do Motocross, em Barbacena, onde morava. E o cara não brinca em serviço, foi campeão da categoria algumas vezes.
Panda ao lado do seu kart segurando o troféu
Em 2012 experimentou o kart adaptado, e com ajuda do pai, que é mecânico de moto, comprou e adaptou um kart. Buscou parceria com o Kartódromo de Betim para treinar e começou a se profissionalizar. Depois de muita luta e mais adaptações no seu kart, participou nos dias 11 e 12 de janeiro do Desafio Internacional das Estrelas, aquela corrida organizada pelo Felipe Massa em Penha, Santa Catarina. Há uma categoria de Kart Adaptado, e este ano contou com dez participantes, de todo o país. Foi a primeira competição oficial que o Panda participou, e ele já conquistou o segundo lugar! Foi uma grande vitória, e agora ele busca patrocínio para participar da Copa São Paulo de Kart Adaptado deste ano.
Entrada do Kartódromo
Curti muito a história do Panda, e fiquei doido para experimentar o kart adaptado. Combinei com ele no Kartódromo de Betim, seria também uma boa oportunidade para conhecer o kartódromo. Cheguei lá e já tive uma boa notícia, o kartódromo tem acesso para cadeirantes. A entrada é plana e tem estacionamento bem ao lado, porém não é demarcado para deficientes. Há vários boxes na área de briefing (orientações para a corrida) e em um deles há um amplo banheiro que eles estão adaptando!
Área de preparação para largada
A área dos pilotos, que conta com boxes e um depósito para cada um, também tem acesso. O único lugar ainda sem acesso é a recepção e a lanchonete, que ficam no segundo andar, e os proprietários disseram que há projeto para instalar um elevador. Para quem é piloto e tem o próprio kart, o kartódromo cobra um valor mensal pelo aluguel dos boxes e depósito, e a pista fica à disposição para treinos e corridas, dependendo da demanda do "indoor", as corridas com karts alugados. E aí que está meu interesse: adaptar um kart de aluguel para que um deficiente possa experimentar o parakart! E, se quiser, competir com os amigos. O fato é que um kart adaptado permite ao piloto correr praticamente de igual para igual com outros pilotos. Se todos forem inexperientes, a igualdade aumenta!
Comandos do kart adaptado, acelerador e freio à mão
Minha grande dúvida era: como transferir para o kart. O banco dele fica praticamente no chão, e há uma carenagem na lateral que deixa o banco ainda mais longe. O Panda me mostrou que não é tão complicado assim, mas que é impossível ir sozinho. Voltar então... Para ir, ele conta com o pai dele, que segura as pernas enquanto ele pula da cadeira para a carenagem, e depois para o banco. Aí o pai passa uma perna por cima do volante e acomoda no assoalho do kart. Ele passa um elástico por cima dos pés para garantir que não vão "pular" para fora em caso de colisão.  Uma vez acomodado, é só acelerar. A adaptação consiste em duas "aletas" atrás do volante, do lado direito fica o acelerador e do esquerdo o freio. Elas giram com o volante, o que garante que os comandos fiquem sempre à mão. Mais fácil que explicar é mostrar, e no vídeo abaixo, do "test drive" que fiz, dá para ver o kart adaptado em ação.
O Panda pretende agora participar da Copa São Paulo de Kart Adaptado, que é corresponde ao campeonato brasileiro. Só que para isto é preciso dinheiro. Gasta-se muito com transporte, pneus, gasolina, inscrição, hotel e alimentação. E o Panda não tem condições de arcar com tudo sozinho, então está em busca de patrocínio. Ele até elaborou um projeto bem bacana mostrando as vantagens que as empresas terão com a divulgação do nome, associação com o esporte adaptado e tudo mais. Vamos ajudar o Panda, clique aqui para baixar o projeto dele e divulgar para as empresas que puderem se interessar por esta oportunidade.
Agradeço ao Panda e à família dele pela recepção e oportunidade de experimentar e divulgar o esporte. E ao Kartódromo de Betim por apoiar a experiência e se interessar por difundir o kart adaptado.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Inhotim

Cadeirante pode curtir o Instituto numa boa!
No início de dezembro realizei uma vontade que já vem de anos: visitei o Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico Inhotim, em Brumadinho, a 55 km de Belo Horizonte. É um dos mais importantes museus de arte contemporânea do Brasil. Eu já sabia que o lugar tem uma certa acessibilidade, pois a Laura Martins, do blog Cadeira Voadora, fez dois ótimos posts sobre o lugar (vejam aqui), que li com antecedência para saber o que me esperava. Descobri nos posts da Laura que há uma jardineira elétrica lá que leva o cadeirante com cadeira e tudo para conhecer as obras, e ainda é gratuito.
Nossos companheiros de viagem, Leo e Iris
Aproveitamos a visita da Íris e do Leo, ambos de Brasília, para finalmente conhecer o instituto. Saímos num sábado nublado rumo a Brumadinho passando pelo posto Chefão e por Casa Branca (há pelo menos três caminhos para lá), em um caminho de quase 60 quilômetros. Escolhi este trajeto pela beleza, é uma estradinha sinuosa que passa pela beirada da cordilheira da Serra da Moeda, dá para ver algumas cidades lá de cima e tem alguns mirantes no caminho. Pouco mais de uma hora, chegamos ao Instituto.
A jardineira cabe o cadeirante com cadeira e tudo e até cinco passageiros
Chegando lá, há várias vagas para deficiente próximas à entrada, e basta solicitar a jardineira elétrica e te buscam rapidinho, te deixando na portaria, a poucos metros dali. Na portaria a gente paga a taxa para entrar no parque (R$ 28,00 em dez/13 - cadeirante não é isento, nem paga meia) e faz a solicitação da jardineira para um passeio de 50 minutos guiado. O ideal é reservar com antecedência, por telefone. A vantagem deste passeio é que você pode ditar a rota, passando pelas obras que mais te interessar. Recomendo traçar uma "volta olímpica" ao parque, pegando as atrações mais distantes da portaria. Há banheiro adaptado na recepção e nos restaurantes.
O visual do Instituto é um espetáculo
O Instituto é enorme, não tente ver tudo em um dia só - é impossível, ainda mais contando com o tempo de embarque e desembarque da jardineira. As obras são todas sensoriais - Inhotim, para mim, é uma experimentação para os sentidos. Desde o visual do lugar, com dezenas de tons de verde, às obras que mexem com a audição, e até como tato. Algumas obras não tem indicação para cadeirantes, como a Galeria Cosmococa, que tem vários ambientes com texturas diferentes no chão, de almofadas a uma piscina, tudo para sentir com os pés. Mas vale a visita para viajar nas pessoas se divertindo.
Cadeira Off Road que eles emprestam. Tem até amortecedor traseiro!
Como há muitos caminhos "tortuosos", muitos deles com grama e pedras, eles emprestam cadeiras "off road". São cadeiras com rodas traseiras de mountain bike, suspensão no eixo traseiro e rodas dianteiras grandes e infláveis. As dianteiras tem até um extensor, creio que para não virar para trás. Elas são pesadas, mas dão conta do recado. Rodei por bloquetes, pedras, grama e até terra, sem agarrar. Em alguns lugares só consegui subir com ajuda, mas no entorno da portaria é tranquilo. E foi por ali que iniciei o passeio, em direção à obra de Zhang Huan, um artista chinês. Demos uma volta ao lago que fica atrás da portaria, onde pudemos ver várias outras obras, de Edgard de Souza, Paul McCarthy, Hélio Oiticica e Yayoi Kusama, e a galeria Marcenaria.
Invenção da Cor, de Helio Oiticica (foto do Leo)
Voltamos para a portaria bem na hora do passeio de jardineira. Iniciamos o passeio em direção à galeria de Adriana Varejão. A cada obra, a jardineira para e aguarda o pessoal voltar. Esta galeria tem três andares e não tem elevador, portanto só dá para conhecer o primeiro andar, e o terceiro, se você animar dar a volta por trás. Não animei, mas acho que valeu pelo visual em frente à galeria. De lá fomos para a Cosmococa (já falei dela), e aí para a de Carlos Garaicoa (uma maquete feita de velas), passando no caminho por obras ao ar livre, como Giuseppe Penone e Chris Burden (muito legais).
Viewing Machine, de Olafur Oliasson
Depois disso pegamos um temporal em um trecho de mata fechada, que eu comentei dizendo que era a obra "Tempestade na Floresta", bem interativa! Hehehe. Chegamos sob chuva forte à Galeria Psicoativa Tunga, que hesitei em sair da jardineira, porque além da chuva, o caminho é de terra, e estava pura lama. Ah, não falei, mas eles emprestam um guarda chuvas grande nestes casos. Iris e Leo desceram e ficamos lá, mas não resisti, já estava meio molhado, e encarei a lama. Valeu a pena, esta galeria é incrível.
Há vários bancos de madeira espalhados pelo Instituto
De lá, voltamos até a obra "The Murder of Crows", com 98 alto falantes contando um pesadelo, imperdível. Essa dá para viajar. Resolvemos dispensar a jardineira e fazer o resto a pé e passamos pelo caleidoscópio de Olafur Eliasson, bem interessante, e pela galeria Praça, que também valeu a pena. Almoçamos (ou quase jantamos) no restaurante Oiticica, um self service de boa qualidade e acessível para cadeiras de rodas.



Algumas panorâmicas de Inhotim tiradas pelo Leo
A avaliação final é que vale a pena e é ótimo para cadeirantes, mas para uma experiência mais completa e divertida, recomendo ir com alguém que aguente empurrar a cadeira em pontos íngremes e esburacados. Pretendo voltar para conhecer o resto! Agradeço à Iris e ao Leo pela companhia e força. Ah, e principalmente ao Leo pelas panorâmicas!

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