
Assim que me dei conta da inegável condição de paraplégico, em que a possibilidade de voltar a andar não foi diagnosticada com mais do que "remota", a primeira coisa que me veio à mente para mudar esta situação para, pelo menos, "provável", seria uma internação no Sarah. O que eu sabia sobre aquela instituição até aquele momento era que muita pessoas entravam em cadeira de rodas e saiam andando e que era o melhor do Brasil em tratamento de lesados medulares. Sempre tem aquele amigo do amigo que tinha um parente distante que foi internado no Sarah que, após intenso tratamento, utilizando os melhores equipamentos da américa latina, saiu andando, apoiado por apenas uma muleta.
Nesse momento, no auge do desespero por achar que ficará preso pro resto da vida em uma cadeira de rodas, o coração se enche de esperança e os amigos e familiares, também mal informados, te animam ainda mais. "Você é jovem, vai recuperar rápido." "Com a aparelhagem moderna deles, daqui a pouco vai estar andando..."
Aí vem a primeira luta: conseguir uma vaga no Sarah. A primeira informação que temos é que é muito difícil conseguir uma vaga, tem que ter "apadrinhamento". Na sequência, a mobilização de parentes e amigos para conseguir uma carta de "indicação" de algum político influente. Liga daqui, liga dali e eis que o escritório de um nobre deputado envia ofício ao Sarah. Não sei até onde isso realmente agiliza o processo, mas menos de um mês após eu deixar o hospital fui chamado no Sarah para "triagem". Feitos os devidos exames, a médica me explica a situação. Resumindo: "você está paralisado do peito pra baixo e no Sarah te ensinaremos como viver da melhor forma possível nesta situação." E a possibilidade de andar? E a aparelhagem moderna? "Temos a mais moderna aparelhagem para auxiliar a recuperação de pacientes que apresentam melhoras motoras." Ou seja, se seu corpo reagir, se movimentos voltarem (apesar do prognóstico contrário), terá todo o apoio para que fiquem o mais próximo possível do normal.
Acredito ser exatamente aí o maior mito: muita gente pensa que no Sarah eles estimulam a volta de movimentos e tratam o paciente com este intuito. É uma visão simplista, estimulada por falta de informação e relatos remotos. Basta analisar a descrição: hospital de reabilitação - re-habilitar a viver bem.
Realmente tem gente que entra na cadeira e sai andando, vi isso lá, mas o paciente, dado seu quadro, já tinha esta probabilidade. Lá eles auxiliam para torná-la realidade. E neste sentido realmente o Sarah conta com a mais moderna aparelhagem e profissionais muito competentes. Nem parece coisa pública, na sala de espera já percebe-se a excelência do lugar. Tudo muito organizado e direcionado a atender as pessoas com as mais diversas debilidades. A estrutura também impressiona, parece coisa de primeiro mundo, tem até hidroterapia e uma piscina com rampa pra entrar com uma cadeira de rodas. E os profissionais então, fisioterapeutas, neurocirugiões, até os enfermeiros, são a nata dos profissionais em reabilitação.
Lá aprendi a me virar em todos os sentidos, do banheiro ao carro, e se tenho um grande nível de independência foi graças ao Sarah. Apesar da 'decepção' inicial, fiquei fã incondicional da rede Sarah, um exemplo que deve ser seguido pelas outras empresas públicas brasileiras.
No fim das contas, vejo o quanto é importante se informar das mais diversas áreas, nunca se sabe quando uma informação será útil.













