Quem acompanha o blog sabe que pude retomar um dos esportes que mais curto em 2013, o mergulho. Mergulho adaptado não demanda muita estrutura, basta fazer o curso específico e ter o acompanhamento correto na hora do mergulho. Uma luva tipo "mão de pato" é um dos poucos equipamento que pode ajudar na prática do mergulho adaptado, mas tem um detalhe que pouca gente percebe, e que poderia fazer toda a diferença: uma lancha adaptada. Já tive problemas em mergulhos, tanto para embarcar no porto quanto para voltar ao barco em alto mar, pois nunca tinha visto uma embarcação que oferecesse alguma facilidade para o cadeirante.
Não tinha visto até mês passado. Recebi um e-mail do Jonny, de Santos, apresentando uma lancha adaptada para deficientes. Ela tem uma tampa na parte da frente que se transforma em uma rampa, permitindo a uma cadeira de rodas entrar com facilidade. A ideia surgiu da indagação do Jonny sobre como seria ter os movimentos limitados e querer aproveitar um passeio de lancha ou algum esporte náutico, como o mergulho. E não existia nada neste sentido no Brasil. Agora já estão operando lanchas adaptadas em Ilha Bela, São Sebastião e Ubatuba no litoral de São Paulo.
Embarcar e desembarcar cadeirante é uma operação de guerra
E o Jonny acertou em cheio. Desde a primeira vez que entrei em um barco depois de cadeirante senti na pele a dificuldade no embarque. Foram precisos quatro homens para me colocar no barco, em uma operação tensa. Afinal, o barco não parava de balançar e sempre havia um espaço entre o barco e o cais. Com muita força conseguiram me colocar para dentro. Depois, para pular no mar, outra dificuldade. Mesmo o barco tendo um rebaixamento atrás, haviam degraus que tive que pular um a um até chegar na beirada, e então saltar para o mar. Se houvesse uma rampa, ficaria muito mais fácil.
Mergulhadores voltando ao barco com facilidade
Mas a maior dificuldade mesmo eu senti na volta. Para voltar ao barco foram três pessoas para me "içar" de volta. E já passei coisa pior, em um mergulho no naufrágio do Victory 8B em Guarapari, o barco tinha uma escada de metal em forma de espinha de peixe, e como o mar estava bravo, bati as pernas várias vezes ali, o que gerou vários hematomas e ainda dei sorte por não quebrar nenhum osso. Com uma lancha adaptada não teria este problema. A rampa entra na água e permite aos mergulhadores, com ou sem deficiência, sair e entrar no barco com facilidade.
Até mesmo mulheres de saia ou vestido podem se beneficiar da lancha adaptada
Além de funcional, a lancha é muito bonita
A lancha adaptada pode atender não só cadeirantes como também um obesos, idosos ou pessoas com dificuldade de locomoção. Espero que operadoras de mergulho e pessoas que queriam proporcionar opções de lazer náutico a todos tenham interesse neste novo tipo de embarcação. O email do Jonny é msjk@uol.com.br e o telefone (12) 99772-0082.
Contando um pouco da minha história e dos desafios que enfrentei - e enfrento até hoje
No último sábado de abril ministrei a palestra "Lesado Medular - Um desafio a cada dia", que preparei para o II Simpósio Mineiro de Reabilitação em Lesão Medular, no Hotel Royal, aqui em Belo Horizonte. O simpósio foi organizado pelas fisioterapeutas Joyce e Simone, da AquafisioBH, onde faço hidroterapia, e foi voltado para fisioterapeutas e profissionais envolvidos com reabilitação de pessoas que sofreram lesão medular. A ideia da Joyce ao me chamar foi mostrar um pouco dos desafios que uma pessoa com lesão enfrenta, do ponto de vista do próprio paciente.
Antes da lesão, muito esporte, muita festa, muita diversão
Comecei mostrando como era minha vida nos últimos meses antes da lesão, contextualizando minha situação para que entendessem como reagi após o acontecido e como enfrentei - e enfrento até hoje - os desafios do dia a dia. Falei que estava em um momento muito ativo, morava em Floripa, estava só estudando, fazendo mestrado na UFSC, tinha terminado um relacionamento há pouco tempo e fazia esportes todo dia, ia de bike pra universidade e fim de semana fazia trilha no sábado e trekking no domingo - e ainda tinha balada todo fim de semana e praia sempre que dava na telha. Meu fim de semana começava na quinta feira meio dia, que era quando acabava a última aula da semana, e acabava na terça às oito da manhã, quando começava a primeira aula. Enfim, eu estava com a vida que pedi a Deus.
Nas férias, curtindo com os amigos
Chegaram as férias do mestrado e vim para Minas ver os amigos e parentes. Encontrei a família, amigos e ex rolos e namoradas, curti muito. E uma semana antes de voltar as aulas, aconteceu o acidente. Contei como aconteceu, como fui socorrido e o doloroso processo de hospital em hospital, com a reação da família e tudo mais. E, principalmente, como foi minha reação. Sei que sou um caso muito raro, senão único, pois eu tinha tudo para me desesperar, ficar triste e até deprimido, já que minha vida era muito ativa e livre. Mas usei de minha racionalidade e conhecimento para reagir. Pensei: "já está feito o estrago, não posso fazer nada para reverter isto, então preciso comemorar que estou vivo e retomar minha vida o mais rápido possível". E assim fiz. Afinal de contas, a alternativa era muito pior. Eu poderia estar morto.
Após o acidente, no hospital, ainda de bom humor
Vieram os primeiros desafios, após a artrodese que colocou minha coluna no lugar: entender o funcionamento do corpo, os primeiros movimentos, e as coisas básicas, necessidades fisiológicas, banho, sono. E aí uma coisa que assusta muita gente: a cadeira de rodas. Ao contrário de muita gente que não aceita virar cadeirante, ficar "preso" à cadeira de rodas, eu estava doido para ir para a cadeira logo. Afinal, eu já estava de cama há uns quinze dias, por causa da cirurgia. Rodava para todo lado, mas ainda não podia sair. Mais alguns dias e convenci uma enfermeira a me levar para fora do hospital, mesmo sem poder. Foi incrível ver o céu novamente. Aí que fiquei ainda mais ansioso para sair rodando de cadeira de rodas.
Entre os primeiros desafios, as transferências, no início com a tábua do Sarah, depois sem ela
Saindo do hospital, novos desafios. Primeiro, adaptar a casa para mim. Depois, fazer fisioterapia. Já tinha começado no hospital, consegui fazer em casa graças ao programa de Home Care do meu plano de saúde. Com fisioterapia consegui melhorar o controle do corpo, ganhar força e melhorar as transferências. Aí consegui a internação no Sarah, que me trouxe muita informação sobre a vida na cadeira de rodas. Depois disso, dirigir foi o que quis fazer primeiro. Sabia que o carro iria me dar muita autonomia e liberdade. Tirei carteira adaptada, comprei carro adaptado, e aí ninguém mais me segurava. Ia sozinho para a fisioterapia em clínica, voltei ao mestrado e ia sozinho para as aulas, e para onde mais tivesse vontade. Nesse meio tempo, outros desafios surgiram e fui superando, como sair à noite, namorar, praticar esportes, viajar.
Dirigir foi uma das primeiras coisas que quis voltar a fazer
E claro, para tornar tudo possível, precisei também voltar a trabalhar. Aqui um adendo: muita gente consegue aposentar por invalidez, mesmo em condições de trabalhar, e se acomoda. Acreditem, se a pessoa tem condições, vale muito à pena voltar. E o melhor caminho é concurso público, não há dúvida. Tentei um processo seletivo, fui muito bem nele, mas não fui chamado. Descobri depois que a empresa tinha escadas na entrada. Parece que não quiseram ter o trabalho de adaptar... Percebendo isto, achei que valia a pena tentar concurso. E consegui de primeira. Isso mudou minha vida, e só cheguei onde estou, consegui muita coisa, por ter voltado a trabalhar.
Após vencer os primeiros desafios, quis me desafiar cada vez mais
E então resolvi criar novos desafios, já que consegui superar todos até aquele momento. Corri atrás de tudo que curtia fazer antes da lesão, e mais. Muito mais. Quem acompanha o blog sabe disso. Foi depois da lesão que fiz a primeira grande viagem ao exterior - já tinha ido a outros países vizinhos, mas outros continentes só fui como cadeirante. Pratiquei esportes que sempre quis depois da lesão, conheci muita gente bacana e continuei saindo, viajando e encontrando com amigos sempre que quis - ou melhor, faço isso sempre que quero. Muita gente diz que sou mais ativo que muita gente que anda, e é verdade. Isso tudo apesar do maior desafio que ainda enfrento até hoje após a lesão - a dor. Sofro de dor crônica, muito forte, constante, vinte e quatro horas por dia. E ainda assim faço de tudo.
Ah, claro, contei meu segredo para superar tudo bem e o que me dá força para sempre seguir em frente. Para fechar a palestra, preparei um vídeo que mostra um pouco de tudo que falei. Ficou muito legal, compartilhei nas redes sociais e bombou. Confiram acima! A recepção do público foi ótima, uma das pessoas falou que foi a melhor palestra, fiquei muito satisfeito.
Este ano quase não fui à Reatech. Primeiro, devido à decepção do ano passado, em que vi poucas novidades e uma feira mais automobilística do que voltada aos deficientes. Segundo, devido a uma gripe braba que peguei poucos dias antes de viajar. Já havia comprado a passagem para sexta à noite, mas na terça feira fui parar no hospital com trinta e oito e meio de febre e dores insuportáveis. Fiquei afastado do trabalho, descansando em casa, mas as dores diminuíram pouco, e a gripe não foi embora. Na sexta melhorei um pouco, e como já estou acostumado a viver com dor, resolvi encarar a viagem. Cheguei a São Paulo quase meia noite, e minha maninha já estava no aeroporto me esperando.
Lá dentro, muito carro, pouca cadeira
No sábado saí da casa da minha irmã onze e meia da manhã, mais meia hora de táxi, cheguei ao meio dia na São Paulo Expo, na Rodovia dos Imigrantes. Pelo horário, até que não estava tão lotado na porta. Entrei no pavilhão e fui para o credenciamento, já que não fiz pela internet. Peguei uma fila - nem adiantava pedir preferência, eram todos deficientes. Mesmo assim, chegando perto do fim da fila uma atendente me puxou para o guichê, onde fizeram rapidamente o cadastro e entregaram o crachá.
Entrando na feira, tive a mesma sensação do ano passado, a de estar entrando no Salão do Automóvel. Fiat de um lado, Toyota do outro, Honda ao fundo, Renault, Chevrolet, Ford e companhia limitada. A Reatech está se tornando em primeiro lugar uma briga de montadoras. Só que, no atual limite de isenção, todas estão perdendo a briga. Há cada vez menos opções de carros automáticos ou automatizados para comprarmos. Pelo menos elas estão pagando pela continuidade da feira... Essa questão do aumento do limite de isenção foi discutida na feira, mas perguntei para várias pessoas, inclusive da Abridef, e ninguém soube o resultado da reunião. Vamos esperar.
Stand sensação da Cavenaghi
Passando algumas montadoras aparece o único stand "de peso" da Reatech, o da Cavenaghi. Era o centro das atenções, com promoções de cadeiras de rodas de qualidade e novidades tecnológicas para cadeirantes. Entre as cadeiras, gostei da Jaguaribe Speed, uma monobloco leve por pouco menos de cinco mil com rodas X-core, sem as rodas sai por menos de 3,5 mil. A Ottobock Ventus também estava lá, por pouco mais de 4 mil. De novidade, havia uma almofada de ar chamada Galaxy por 1.280,00, com a proposta de se encaixar melhor no traseiro por ter gomos de alturas diferentes. Outra novidade bem interessante é o encosto italiano Tarta, que é leve e envolve bem o cadeirante. Me sentei em uma cadeira com ele e senti a diferença, abri os braços e não senti nenhum desequilíbrio, fiquei bem firme. O único defeito - assim como da maioria dos apetrechos para deficientes - é o preço: salgados 5.200,00 reais. E olha que esse é o preço na feira. Nem quero saber fora.
Almofada Galaxy e encosto Tarta
Depois de quase cair para trás com os preços, fui ao stand da Guidosimplex, montado pelo pessoal do Hélio, que veio este ano em parceria com a Jeep, e mostrou o único carro que me interessou - o Renegade. O carro está muito bonito, e a versão de entrada pode ser adquirida com isenção de IPI e ICMS, só que com câmbio manual. O carro é um pouco alto, mas não é tão difícil transferir. Ele estava equipado com o Ghost, o acelerador eletrônico que fica por trás do volante e é acionado deslizando os dedos. Chique demais. No stand havia também novas versões das adaptações Guidosimplex, como o Elite, Europa Lever e F1. Já experimentei todos, muito confiáveis e precisos.
Stand da Guidosimplex, em parceria com a Jeep
Jeep Renegade carro mais legal da feira
Quando consegui parar de babar pelo Renegade, fui ao stand da Vemex. Na feira foi lançada a handbike Bólido SX1, feita de alumínio com componentes de alto nível, e preço competitivo para uma handbike top - pouco menos de seis mil reais. Se considerar que uma importada não sai por menos de dez mil, até que está bom. A bike ficou muito bonita e bem acabada, e já está fazendo pressão nas pistas. A Vemex está patrocinando o paraciclista Josimar Sena, que tem conseguido bons resultados. Também na Vemex chamou a atenção o preço da cadeira de rodas Falco, que baixou significativamente, para 4.745,00 na feira. Outra promoção que fez sucesso foi de rodas Spinergy, mas nem vou colocar o preço, pois todas acabaram na feira mesmo - eu comprei a última!
Bólido SX1, a handbike da Vemex
Com o Evandro Bonocchi, ao lado da Falco
A novidade mais quente, na minha opinião, é o Kit Radical, uma roda com motor elétrico que se adapta à cadeira de rodas, semelhante ao FireFly, só que fabricado no Brasil e por pouco mais da metade do preço. O Kit Radical tem vários modelos com potências diferentes. O mais interessante é o Standard, de 350 Wats, que custa 4,9 mil reais. Os kits se encaixam em um suporte universal montado embaixo da cadeira de rodas, e basta virar e travar para sair acelerando. A bateria tem autonomia de 20 quilômetros, mas um dos kits pode receber duas baterias. Conversei com o projetista e ele me explicou os passos do desenvolvimento e os próximos projetos, que incluem uma adaptação para cadeira monobloco. O produto é muito bom, traz muita autonomia ao cadeirante, e nem precisa virar marombado para tocar ela na rua. Também no stand do kit conheci um protótipo de mini ergométrica com motor, permitindo ao cadeirante exercitar as pernas como se estivesse pedalando. Muito legal.
Kit Radical Standard
Kit Radical montado em uma cadeira
Outro stand que sempre curto visitar é o da Jumper, que tem cadeiras para esportes radicais. Vi lá a Infinity, uma cadeira de titânio com detalhes dourados, muito linda. E nem tão cara como a concorrente americana, a partir de nove mil reais.
Cadeira de titânio Infinity, no stand da Jumper
Mais uma vez, valeu a pena ir à feira para encontrar os amigos, alguns que eu só vejo na feira. Encontrei menos gente do que no ano passado, mas só gente boa!
Com o Gilberto Porta e a Telma, mineiros marcando presença na Reatech
Desde que descobri o Panda, primeiro piloto de parakart adaptado mineiro que se tem notícia, botei pilha nos proprietários do Kartódromo de Betim para que adaptassem um kart de aluguel para possibilitar aos deficientes correr com seus amigos - e até competir entre si pelo melhor tempo. Na época animaram com a ideia, conversaram com o seu Helon, pai do Panda e responsável pela adaptação do kart dele, que topou a parada também. Fiquei na expectativa, mas com corrida todo fim de semana no kartódromo, e considerando que o seu Helon é mecânico do Panda, que estava participando do campeonato brasileiro de parakart - do qual foi campeão - o tempo foi passando e nada de kart adaptado. Até que mês passado finalmente ficou pronto! Panda fez questão de testar para ver se a adaptação estava boa, e assim que aprovada ele entrou em contato comigo para que eu fosse lá experimentar.
Com o Humberto em frente ao pódio, que ainda não está adaptado, mas é só me colocar lá em cima!
Combinei com dois colegas de trabalho, o Humberto e o Francisco, e fomos para o Kartódromo em um sábado à tarde. Tínhamos marcado a corrida para as três da tarde, mas cheguei um pouco mais cedo, pois tinha que verificar se tudo estava certo para possibilitar minha corrida. Quem me recebeu lá foi a Thiara, administradora do Kartódromo (e corredora também). Ela me disse que o Panda deu o veredito no kart e que era só aguardar para entrar na pista com ele. O Panda não pode ir porque estava meio adoentado, mas falei com ele pouco tempo antes e me deu as instruções para operar o bichinho. Eu já andei no kart do Panda, como contei aqui, mas esta adaptação era um pouco diferente. No do Panda, o acelerador e o freio são acionados por aletas atrás do volante, mas neste o freio é uma barra por acionamento manual no chão do kart, similar àquelas das adaptações de carros de rua. O que complica um pouco a pilotagem, pois segurar o volante (que não é hidráulico, claro) com uma mão só enquanto freia em uma curva é uma tarefa difícil, como comprovei na prática depois.
Detalhe do kart adaptado, do lado direito o acelerador embaixo do volante, do esquerdo o freio ligado ao chão
Chegada a hora da corrida fizemos a inscrição e pegamos o equipamento. Além de mim e meus três colegas (o Francisco levou o irmão mais novo dele), outras três pessoas se inscreveram para completar o grid. Eu e o Humberto não fomos assistir ao briefing, uma explicação rápida sobre as regras da corrida, porque já havíamos corrido antes (eu há muito tempo, mas lembro bem das regras). Fui colocar o macacão no banheiro adaptado que fica dentro do vestiário, que infelizmente ainda não está totalmente adaptado, falta a rampa e a porta, mas fecharam o vestiário todo para mim e pude me trocar.
Já equipado e instalado no kart, com minha equipe de apoio
Fomos então para o galpão onde ficam os karts, onde finalmente conheci o adaptado. A adaptação ficou ótima, muito bem feita. A transferência para o kart ainda é um exercício, mas com pouca ajuda e em etapas, sentando na lateral e depois no assento, é tranquilo. Recomendo levar uma almofada pequena, pois o assento é de fibra sem acolchoamento, como os outros karts, mas como temos menos "material" na bunda a almofada é útil. Transferi para o kart mas descobri um problema: como minhas pernas são muito grandes (mais de metro) ficou impossível acomodar as pernas dobradas e acionar o freio, que fica próximo ao volante mas preso ao chão. A solução foi deixar as pernas esticadas, com os pés por cima do para choque do kart. O problema é que tenho muito pouca sensibilidade nos pés, e não dava para saber se estava machucando. A solução foi colocar uma outra almofada por baixo dos pés e amarrá-los bem para não ficarem batendo.
Na tomada de tempo me adaptando ao kart
Uma vez instalado, bora pra pista. Abriram a pista para o qualifying, ou tomada de tempo, onde os pilotos vão para a pista alternadamente dar voltas para formar o grid. Quem faz o menor tempo larga em primeiro, o segundo em segundo, até o fim do grid. Acostumei rapidamente com os controles, depois de umas duas voltas já parti para as voltas rápidas. Rodamos por uns dez minutos e formou-se o grid. O Humberto era o mais experiente de todos, já corre há algum tempo e ficou com a pole position. E quem ficou em segundo? O kart adaptado! Fiz o segundo melhor tempo apesar de ter ficado mais de dez anos sem correr. Fiquei muito feliz com a colocação.
Grid de largada, adrenalina a mil!
Tudo pronto, foi dada a largada. O Francisco, que largou em terceiro, pulou entre eu e o Humberto e assumiu a ponta. Logo em seguida Humberto o passou, e duas curvas depois eu fiz a ultrapassagem por dentro em uma curva que ele abriu demais. Dali em diante, o Humberto foi distanciando, enquanto segurei firme a segunda posição. Até que, por volta de dois terços da prova, o Humberto foi fechado e saiu fora da pista, ficando agarrado nos pneus. Aproveitei o vacilo e assumi a ponta! Mas senti na sequência um piloto de capacete cinza na minha cola. Errei uma curva fechada e senti o cara aproximando. Na volta seguinte, errei a mesma curva e o cara colou. Mais um errinho bobo e o cara passou. Pior foi que trouxe o Humberto na sequência, que se recuperou e me passou na última volta!
Foi dada a largada!
No fim, Luiz, um dos caras que estava no kartódromo e se inscreveu junto com a gente ficou em primeiro, Humberto em segundo, eu em terceiro e o Francisco em quarto. O irmão do Francisco ficou em sexto. Analisando meus erros (pelo vídeo que gravei de toda a corrida) percebi que eu errava justamente em uma curva para a esquerda em que eu precisava dar uma freada forte antes e até o meio, e como disse no começo segurar o volante com uma mão só não é fácil. Mas fiz uma excelente corrida, conhecendo muito pouco a pista e menos ainda o kart. Minha melhor volta foi 1"10'714, esse tempo posso usar para comparar com outros deficientes que corram no mesmo kart (exceto o Panda, que é profissa!). Foi muito divertido e pretendo voltar em breve, porém é preciso melhorar a posição do freio, de preferência no volante como o do Panda, para que eu possa acomodar as pernas dentro do kart, acabei machucando um pouco a canela. Outras pessoas de estatura normal podem não ter este problema.
Minha visão pilotando o kart adaptado
Abaixo um vídeo que fiz com os melhores momentos da corrida, ficou um pouco de lado pela posição da câmera no meu capacete, pois acabei encostando nela. Mas dá para ver tudo que falei, até o Humberto preso nos pneus aos três minutos e dez, e algumas ultrapassagens de retardatários que fiz. Gostaria de agradecer imensamente à Thiara, por ceder um chassi para ser adaptado, ao seu Helon, que fez a adaptação, e ao Panda por nos ajudar a tornar tudo possível. Agora é juntar os amigos e pé na tábua! Ou melhor, mão na aleta, no nosso caso! Rsrs
Sempre gostei de trilha, a pé ou de bicicleta. O exercício aliado ao contato com a natureza proporcionam uma experiência revigorante. Antes de virar cadeirante eu praticava mountain bike e trekking, e depois de virar já tinha conseguido fazer mountain bike adaptado, com uma handbike. Faltava o trekking. Já tinha andado de cadeira de rodas adaptada para terreno acidentado em Inhotim, mas não é a mesma coisa que fazer trekking adaptado. Algumas pessoas já haviam me informado sobre a existência de trilhas adaptadas para cadeirantes até mesmo próximo a BH, mas nunca pude experimentar. Até que em dezembro, em férias pelo Espírito Santo, fui informado pelo Marcos Sossai, que trabalha no IEMA e é meu amigo desde a época de faculdade, que há uma trilha adaptada para cadeirantes no Parque Estadual Paulo César Vinha, na praia de Setiba, em Guarapari, onde eu estava.
Entrada do Parque Estadual Paulo César Vinha
Claro que fiz questão de ir lá conhecer. Combinei de ir à tarde, e como eu estava de carro, ficava mais fácil. Encontrei facilmente a entrada do Parque, fica na Rodovia ES-060, é bem sinalizado por placas e tem um belo portal com o nome do parque e uma libélula em cima, o símbolo do Parque. Ao chegar já estavam me esperando, em frente à recepção do parque, uma bióloga, uma guia e uma fotógrafa, além de outro funcionário do parque. Me orientaram a estacionar o carro próximo à entrada, já que o solo no estacionamento era de pedrinhas. Depois que estacionei e fui até eles, me contaram um pouco sobre a história do parque, sobre o trabalho de conservação realizado no estado e sobre a estrutura do parque, que conta com Centro de Vivência e tem até um painel de geração de energia solar.
Prédio da Administração e recepção do Parque
Em seguida me contaram sobre o Projeto Trilha Cidadã, com o objetivo de promover a inclusão social de pessoas com deficiência por meio de atividades de Educação Ambiental e do contato com a natureza. O objetivo é promover visitas de pessoas com deficiência atendidas por entidades assistenciais para assistir a palestras e participar de um roteiro de visitação em trilhas adaptadas com estrutura para deficientes visuais, físicos e pessoas com transtornos mentais. Para deficientes visuais há trilhas interpretativas, com utilização de mapa e um catálogo táteis, e o percurso com pegadas de animais em alto relevo. Para deficientes físicos, foi adquirida uma cadeira de rodas para terreno acidentado, com amortecedor interno e rodas largas, semelhante à que utilizei em Inhotim. Uma falha na estrutura é a ausência de banheiro adaptado para deficientes, que apesar de já estar com projeto pronto, ainda não foi liberado para construção. Espero que as autoridades responsáveis percebam a importância deste projeto e resolvam logo este problema.
Cadeira de rodas adaptada para terreno acidentado, com amortecedor central
Como já conheço a cadeira adaptada para trilha, transferi facilmente para ela e me ofereceram luvas próprias, cinto para segurança e garrafa de água para me hidratar no percurso. Devidamente equipado, me explicaram sobre o roteiro, uma trilha de terra e areia chamada Trilha da Restinga, que passa por uma lagoa e chega até a praia por outra trilha. O início do trajeto está um pouco judiado, pois é em uma leve descida que está com um pouco de erosão e buracos. Mesmo assim consegui descer devagar sem ajuda. A cadeira está nova e é fácil de tocar sobre a areia, mas cansa com o tempo. No início, descansado, fiz questão de tocar sozinho e aproveitar o visual ao lado da Gi, enquanto a bióloga e a guia nos falavam sobre a diversidade da fauna e da flora do parque. Muito legal observar as características das árvores e alguns animais enquanto elas explicavam tudo. Ao longo de toda a trilha há também placas com informações sobre a fauna e detalhes da área.
Mapa e detalhes da Trilha da Restinga
Início da trilha, um pouco judiado
Trecho da trilha, de chão batido. Mas há trechos com areia fofa...
O terreno é em sua maioria de areia, firme em alguns pontos e mais fofa em outros, o que me obrigou a pedir ajuda para minha empurradora oficial em alguns trechos. E é na maioria plano, com leves declives. Além disso, o sol ainda estava forte, em pleno verão, e acabamos paramos também em algumas sombras para todos descansarem. Porém, às vezes haviam colônias de mosquitos que nos expulsavam logo, por isso sugiro levar repelente.
Lagoa de Carais, na metade do caminho
Ponte que leva ao cais para passeio de caiaque
Lá pela metade do caminho chegamos à Lagoa de Carais. Há uma estrutura de madeira com caiaques, parte do projeto de visitação do parque, em que os visitantes vão até a praia remando, mas não tem nenhum adaptado. Elas citaram um caiaque mais fundo que poderia ser adaptado, e ficaram de me mostrar na volta. A lagoa tem uma cor escura, como se fosse Coca Cola, e muita vegetação flutuante. Paramos para curtir o lugar e tirar umas fotos. Continuamos em seguida e nos deparamos com um painel para fotos bem divertido, só que não tinha lugar para cadeirante... ou pra gente baixinha. Podiam ter colcado um buraco na cara do macaco debaixo, eu nem ia achar ruim!
Painel para fotos, a Gi virou uma verdadeira aventureira
Depois de uma hora e meia aproximadamente, contando com as paradas, percorremos os mil e quinhentos metros da trilha e nos deparamos com a bela vista da praia e das três ilhas ao fundo, que ficam a três quilômetros da praia. Apesar de próxima, não animei descer até a praia, pois não tinha levado minhas boias de braço... Além disso, voltar para a cadeira seria bem difícil. Se andasse paralelo ao mar por mais o mesmo tanto de trilha, 1,5 km, ia dar no final da lagoa, mas também não animei, estava entardecendo e a volta seria no escuro. Iniciamos a jornada de volta, tranquilamente - exceto nos trechos em que haviam leves descidas, que eu aproveitava para acelerar! Vejam o vídeo ao fim da matéria.
Ao final da primeira parte da trilha, lindo visual com as três ilhas ao fundo
As meninas que nos acompanharam e informaram durante a trilha
Vista panorâmica da praia de Setiba
Valeu pelo visual, pelo contato com a natureza e pelas informações recebidas pelas meninas do parque. Parabéns a todos pela iniciativa e pelo trabalho desenvolvido no parque, que sirva de exemplo para outros municípios e estados.
Elevador para cadeirantes na estação Termini em Roma
Outro trecho que eu sabia que seria de trem era de Roma a Modena. Procurei a melhor operadora, encontrei a Trenitália, que também mostrou estar preparada para atender deficientes. Possuem um programa específico para auxilio a pessoas com mobilidade reduzida chamado Sala Blu. Em Roma, na estação Termini procurei a Sala Blu para resolver tudo e comprar as passagens. Há várias salas desta espalhadas por estações da Itália, veja aqui a relação. Lá eles programam toda a viagem para você e vendem a passagem específica para trens adaptados. Eu deveria pegar dois trens, um de alta velocidade até Bolonha, e outro comum até Modena. Em cada estação que eu fosse descer, haveria uma equipe me esperando com um elevador para me retirar do trem. Achei tudo muito fácil e organizado, comprei a passagem de ida, para oito da matina, uma viagem que duraria pouco menos de três horas - para cobrir mais de 400 km! Não comprei a passagem de volta porque não sabia que hora acabaria tudo na Ferrari - foi aí que vacilei.
Sala para auxílio a pessoas com deficiência
Chegamos cedo à estação e já estavam me esperando com o elevador. Me colocaram para dentro e, assim como o trem de Londres, este também era primeira classe e tinha banheiro adaptado. A poltrona, porém, era diferente, havia uma para o cadeirante e outra igual ao lado para a acompanhante, muito confortáveis e com espaço para estacionar a cadeira de rodas. Porém não há mesa para estas poltronas. Tratei de passar para outra em frente, com mesinha. Apesar de não estarmos em Londres, o trem também foi pontual. Logo começou a pegar velocidade, e monitores ao longo do vagão informam sobre a velocidade e mostram imagens dos trilhos à frente e mapa demonstrando por onde está passando. A velocidade chega a 250 km/h! Impressionante como a paisagem passa rápido. Houve uma parada em Florença, fiquei com vontade de descer para conhecer a cidade mas tinha que continuar. Chegando em Bologna (fala-se Bolonha), me deu vontade de comer macarrão à bolonhesa, mas o elevador já estava esperando e fui retirado para trocar de trem. O pessoal é bem ligeiro no trabalho, saíram me empurrando por dentro da estação (que é enorme) pegando elevadores de carga e comuns, corredores compridos e esquinas tortuosas. Enfim saímos no hall da estação e fui levado direto à Sala Blu. Ficamos esperando cinco minutinhos e logo me pegaram novamente, para levar ao outro trem.
Poltronas para deficiente e acompanhante
Vagão de primeira classe da Trenitalia
O trem que ia para Modena era bem mais modesto que o anterior, e mais lento também, mas ainda assim deve chegar a uns 150 km/h. A viagem foi rápida e o elevador da estação de Modena estava a postos para mim. Engraçado é que era manual, e o operador rodou uma manivela rapidamente para que eu saísse a tempo. Fui passear no museu da Ferrari de lá, fui a Maranello no outro museu, e voltei a Modena por volta das seis e meia da tarde, debaixo de chuva. Me dirigi ao guichê para comprar minha passagem de volta para Roma. Apesar de haver somente três guichês e uma grande fila, logo que me aproximei fui direcionado ao próximo guichê livre. Chegando lá, me atendeu um senhor que não falava inglês. Felizmente estudei um pouco italiano e para auxiliar tinha um aplicativo instalado no celular com expressões e frases utilizadas em viagens. Pedi então a passagem mas o senhor me disse que não seria possível. Oi? Como não? Porque não? Perguntei um pouco aflito. Ele me explicou que não havia mais trens adaptados naquele dia. Além disso, eu deveria ligar para um número com um dia de antecedência para programar os elevadores.
Monitor que mostra a velocidade do trem
Comecei a gelar. Meu vôo para Madri era no dia seguinte às nove e meia da manhã, e eu precisava chegar ao aeroporto duas horas antes. E no outro dia iria embora para o Brasil. Para completar, naquela cidade pequena, dificilmente encontraria um hotel adaptado. Tentei explicar isso tudo para o senhor, e que eu precisava ir para Roma naquele dia, mas ele foi inflexível. Disse que não tinha o que fazer e que eu precisava ligar para aquele número. Fui tentar então. A estação é pequena e logo encontramos orelhões, em um bequinho meio escuro. O número era tipo 0800, pelo menos. Tentei ligar uma vez, chegou naquela gravação dizendo "ligue novamente mais tarde, todos os nossos atendentes estão ocupados". Tentei novamente, caiu de novo na gravação. Mais uma vez, mesma coisa. Lá pela décima vez, cheguei à conclusão que não é só no Brasil que ligações gratuitas não funcionam.
Resolvi voltar ao senhor do guichê, disse que não consegui falar e que precisava ir para Roma de qualquer jeito. Ele continuava falando que não tinha jeito, que eu tinha que ligar para aquele número para programar os elevadores e talvez conseguisse pegar um trem às seis da manhã. Seis da manhã? No way! Ah, esqueci que ele não falava inglês. Como ele estava começando a ficar nervoso, sai de lá e comecei a me desesperar. A Gi, por incrível que pareça, estava calma e rindo. Geralmente é o contrário... Falei pra ela: já te coloquei em muita fria, mas essa bateu o recorde. Estamos presos no interior da Itália, num lugar que ninguém nos entende direito, escurecendo e chovendo, sem hotel nem rumo. Aí ela teve uma ideia, tentar conversar com outro atendente, mais novo, do guichê ao lado. Poderia ser mais receptivo... Fui lá falar com ele então, que também não falava inglês. Na verdade, percebi que dificilmente encontraria alguém que falasse inglês naquela estação. Expliquei para ele em italiano more or less e ele se sensibilizou com meu caso. Disse que conseguia me colocar em um trem comum, sem vagão adaptado, mas eu teria que ligar naquele número. Mesmo eu dizendo que não tinha conseguido, a única solução era essa, pois naquele número eles chamariam uma pessoa para operar o elevador de Modena e programariam os outros elevadores em Bolonha e Roma.
Voltamos para o bequinho para tentar ligar novamente, comecei a tentar, uma, duas, na terceira vez tocou! Atendeu um cara falando em italiano. Perguntei se ele falava inglês e ele disse que não. Perguntei se alguém lá falava inglês, e ele ficou de olhar. Logo atendeu uma mulher falando um inglês bem more or less também. Mas pelo menos falava... Expliquei para ela minha situação e disse que precisava ir para Roma naquele dia. Ela me disse que era impossível, que não tinha ninguém para operar o elevador, que não tinha jeito. Falei quase implorando para ela tentar dar um jeito, pois eu perderia o voo para Madri, ia ferrar minha vida. Ela saiu e eu ouvi ela conversando um tanto com o povo lá, e de repente ela volta. Disse que ia conseguir me ajudar, e eu deveria voltar aos guichês e procurar uma pessoa de verde. Ele ou ela iria me colocar para dentro do trem. Eu não acreditei no que ela disse. E perguntei: quer que eu desligue um telefonema super difícil de conseguir, vá ao guichê e procure uma pessoa de verde que você nem sabe se é homem ou mulher? Ela disse sim. Bom, fazer o que né.
Desliguei e fomos aos guichês, chegando lá não tinha ninguém de verde, perguntei aos atendentes e eles não sabiam de ninguém de verde. Ferrou. Falei pra Gi rodar pela estação e pegar qualquer pessoa vestindo verde, nem que fosse uma pulseira, e puxasse até onde eu estava. Ela saiu correndo, e de repente viu uma mulher com um jaleco verde e um crachá falando ao celular. Ela segurou no braço dela e disse "você que vai ajudar o cadeirante?". A mulher não entendeu nada mas percebeu pelo desespero que tinha a ver com meu caso. Trouxe a mulher até mim e ela já chegou se desculpando por não falar inglês! Tudo bem, eu disse, desde que consiga me colocar no trem. Perguntei também que hora o trem passava, ela olhou para o painel e falou: é agora! Saímos correndo pela estação, ela na frente e nós atrás. Tinha que pegar um elevador, passar por baixo da estação e pegar outro elevador para sair no meio. Depois de demorar o elevador, saiu um senhor rechonchudo, e a nossa ajudante falou "é por isso que ele está gordo, fica pegando elevador ao invés de usar a escada". A essa altura eu já estava rindo, apesar do sufoco. Saímos no meio da estação e ela saiu correndo, nós dois atrás. Ela sumiu de vista mas falei pra Gi não preocupar, não tinha pra onde fugir. Chegando ao final, vi a Paula - nossa ajudante - pegar o elevador ao mesmo tempo que o trem chegava ao meu lado. Ela fez sinal para o maquinista esperar, rodou a manivela de elevador, eu subi, ela girou o troço todo de novo e me colocou para dentro. Ufa! Aí foi só alegria, agradeci ela um monte e fomos embora. Trocamos de trem em Bolonha e chegamos a Roma já tarde, com fome, cansados, mas aliviados! Fica a dica: em qualquer viagem de trem pela Itália, programe tudo pela Sala Blu antes de sair!