Cheguei ao hotel Tryp Brasil 21 em Brasília e já fui confirmando na recepção: "o quarto é adaptado, né?" Ao que me sorriu positivamente o atendente, afirmando ainda que havia mais outros dois quartos adaptados. Nem pedi ajuda aos carregadores, já que minha mala estava no colo, e subi tranquilo, e ao chegar no quarto já encontrei uma incoerência: a porta é ao lado de uma viga, o que dificulta a curva de entrada e saída. Tudo bem, era só um detalhe, uma curva mais aberta não ia me atrapalhar.
O quarto é bem bacana, tem uma salinha com TV de LCD, sofá e uma mesa de estudo. E um frigobar com mini bar e um armário. Fui até a mesa de estudo, que fica ao lado do sofá, pois queria ver a vista, mas eis que a cadeira não passava entre os dois. Como nenhum dos dois se movia com empurrão, fui até o quarto pra ver se conseguia ver a janela. No quarto, mais um vacilo: camas altas demais, difíceis de subir. E no canto, um abajur alto, que contribui muito com a luminosidade, com um pequeno detalhe: para ligá-lo, basta PISAR no interruptor, como podem ver abaixo. Fala sério, heim?? Em um quarto adaptado??

Tudo bem que dá pra chegar ao lado do interruptor, se inclinar até o chão e apertar o botão, mas precisava deste esforço? Era só ter um interruptor no meio. Mas o pior estava por vir. Fui conhecer o banheiro, e já na entrada tem um ressalto, não chega a ser degrau, mas incomoda pra passar toda hora, tem que fazer uma força. O vaso não tem absolutamente nada de adaptado, nem uma barra lateral para apoio. E o chuveiro? Além de um ressalto para entrar, não tinha cadeira fixa, nem móvel, nem mesmo um chuveirinho! A única coisa que lembra remotamente uma adaptação é uma barra na altura da saboneteira. A foto ficou ruim, mas dá pra ver:

Como, então, eu iria tomar banho? Liguei pra recepção, e depois de perguntar se estava no quarto certo (adaptado pra deficiente), expliquei a situação e a recepcionista ficou de arrumar pelo menos uma cadeira pra eu tomar banho. Alguns minutos depois chega a cadeira, daquelas mais simples que existem pra banho, com rodas pequenas e braço fixo. Gente, não sei se sou só eu, mas cadeira de banho com braço fixo é um convite ao tombo. É muito difícil de entrar, mais ainda de sair, e ainda mais sozinho. Olha ela aí (e percebam o degrau para o banheiro):

Mas não tinha outra, lá fui eu tomar um desafiador banho. Primeiro coloquei a cadeira sobre a privada, posicionei a minha de rodas ao lado e fui vagarosamente escorregando até ela, até dar um saltinho e cair nela. Fiz o que tinha ido fazer e comecei a operação para ir para o box. Me empurrei pela parede até alcançar a pia. Puxei pela pia e manobrei para o lado, em direção ao box. Cinquenta e oito manobras depois consegui me posicionar dentro do box. Abri o chuveiro, daqueles que tem que temperar e já tomei água gelada no corpo. Resumindo: lavei o que pude sem chuveirinho, jogando água pra todo lado.
Aí fui sair. Sem ter como tocar a cadeira, fui puxando pela pia, jogando peso em um lado da cadeira pra sair do ressalto, até conseguir. Continuei puxando por onde consegui: pia, porta, parede ou quina. Cheguei no quarto, posicionei a cadeira bem travada e encostada na cama ao lado da de rodas e fui passar. Quando suspendi o corpo tentando sair dela e estava no meio do caminho, tentando me equilibrar em direção à cadeira de rodas, abriu-se um espaço entre as duas e fui pro chão. Por sorte caí com as pernas de lado, sem forçar as juntas, mas a porrada foi boa.
E agora, como voltar pra minha cadeira? Como a cama era muito alta, não dava pra subir. Resolvi então ir me arrastando até a sala, subir no sofá e então na cadeira. Essa hora, juro, foi a primeira vez que senti o tamanho da limitação que a paraplegia causa. Eu dava um pulo pra trás e puxava as pernas, outro pulo e as pernas de novo. E ainda empurrava a cadeira pra trás. A sensação é muito, muito ruim. Pelo menos era carpete no chão.
Cheguei ao sofá, e não conseguia subir porque a almofada era muito macia. Tirei a almofada, consegui subir, passei pra cima da outra almofada e fui tentar ir pra cadeira. Como ela é bem mais alta, foi outra luta e quase outro tombo. Fiquei muito dolorido ao final, mas consegui.
Nos outros dias, eu ia na cadeira de banho me arrastando até a sala, passava pro sofá e depois pra minha cadeira. Passava frio no caminho, dor nas transferências complicadas e ficava exausto pela dificuldade no processo. Deveria ser muito mais fácil, afinal o quarto não era adaptado? Não recomendo, se forem a Brasília, procurem outro lugar.