Você conhece as "Regras de Ouro" para a escrita de textos com símbolos? Sabe como utilizar símbolos para melhorar a comunicação de pessoas com dificuldades nessa área? Conhece os softwares que utilizam o sistema de símbolos e são importante suporte para a comunicação alternativa de pessoas com deficiência? Conhece os softwares disponíveis, de suporte ao ensino de matemática e de ciências para pessoas com deficiência? Você conhece os recursos eletrônicos de apoio a pessoas com deficiência auditiva e visual? Já utilizou o tablet para facilitar a comunicação alternativa de pessoas com deficiência? Você conhece os modernos dispositivos eletrônicos que possibilitam a comunicação, a aprendizagem de pessoas com deficiências múltiplas?
Você pode conhecer tudo isso e muito mais no Curso de Atualização de
Tecnologias Assistivas: favorecendo a aprendizagem e a inclusão da pessoa com
deficiência, oferecido pela UNIAPE - Universidade Corporativa da Federação das
APAEs de Minas Gerais, tendo como professores conteudistas o Prof. Dr. Marcelo
Duduchi (USP) e a Profª Patrícia Vieira de Andrade Corrêa (Imagina). Você fará o
curso inteiramente a distância, dispondo de material didático de excelente
qualidade, em Ambiente Virtual de Aprendizagem de fácil utilização.
Uma loja bem completa, direcionada a pessoas com limitações e idosos
Sempre reclamei da falta de lojas dedicadas a cadeirantes em BH. Quando virei cadeirante em 2006, não havia sequer uma loja dedicada a este público. Na época eu precisei alugar uma cadeira de rodas e só havia uma loja que oferecesse este serviço. A cadeira que aluguei, porém, era daquelas americanas cromadas, enormes e muito, muito pesadas. Mas era o que tinha. Pouco tempo depois descobri uma loja que trabalha com cadeiras de rodas motorizadas. Hoje em dia, sei de apenas uma loja que vende cadeiras de rodas monobloco, de qualidade, mas não são especialistas no ramo.
Porém, estes dias finalmente encontrei uma loja que é especialista em Soluções em Mobilidade e Inclusão: a Technocare. É uma loja relativamente nova, mas com uma estrutura de dar inveja a muita loja de São Paulo e Rio. Lá há todo tipo de produto para auxílio a pessoas com limitações, desde camas e cadeiras de rodas, a pequenas adaptações para tetraplégicos, pessoas com paralisia cerebral e outras limitações.
Alguns produtos da Technocare
A Technocare faz também prescrição de cadeira de rodas e adaptações, um serviço que muita gente procura e não sabe bem onde encontrar. No meu caso, o Sarah prescreveu minha cadeira de rodas, mas na época a recomendação era para aquisição de uma cadeira dobrável, em duplo X, e foi suficiente na época. Quando passei para a cadeira monobloco, tive que ir a São Paulo para encontrar as medidas ideias da cadeira para meu tamanho. Mesmo assim, depois de anos acostumado com a cadeira, somente após a consultoria em Adequação Postural que recebi na Technocare pude melhorar minha postura na cadeira de rodas e diminuir um pouco minhas dores. A Technocare atende também em casa, em qualquer lugar da grande BH.
Além disso, a Technocare tem um Centro de Tecnologia Assisitiva, voltada a profissionais dedicados à reabilitação, proporcionando um espaço para experimentação de produtos e aprendizagem em tecnologia assistiva. Com uma equipe de profissionais de várias áreas afins, o Centro presta consultoria e oferece suporte técnico. Lá há também vários cursos e eventos voltados a estes profissionais.
A Technocare é uma loja muito completa e conta com profissionais de alto nível, a Irene me recebeu muito bem quando estive lá, vale uma visita! Fica na Avenida Pedro II, 3377, no Padre Eustáquio, e tem estacionamento na frente. O site é www.technocare.net.br e o telefone (31) 3443-2200. Não deixem de conhecer!
Maria de Mello me explicando a importância de manter a postura correta
Manter a postura correta é um desafio para todo mundo. Antes de virar cadeirante, eu já sofria com problemas ocasionados pela má postura, devido aos 1,95 metro de altura. Para começar, sentia dores no pescoço por ficar sempre olhando para baixo e, principalmente, para alcançar a boca das meninas... Sacrifício válido! Outra queixa constante era na região da coluna lombar, que era constantemente forçada nos diversos esportes que eu praticava. Esse quadro me rendeu muitas sessões de fisioterapia e aplicação de calor e gelo. Só que eu era indisciplinado, largava a fisioterapia na metade e não fazia os exercícios recomendados. Acabava voltando ao médico...
Alguns problemas de coluna comuns
Ao virar cadeirante devido a lesão medular, a maior parte das pessoas (incluindo eu) relaxa ainda mais para manter a postura. O que complica ainda mais o quadro é a falta de sensibilidade, como não sentimos mais as dores abaixo da lesão, a coluna pode piorar bastante com o tempo. Como eu recuperei alguma sensibilidade, voltei a sentir as dores na lombar que me queixava no passado, e passei isso para minha fisioterapeuta, a Joyce da Aquafisiobh. Ela passou alguns exercícios que faço até hoje na água, na hidroterapia, o que me alivia um pouco. Só que eu estava tratando a consequência, e não a causa: a má postura.
Mês passado, no II Simpósio Mineiro de Reabilitação em Lesão Medular do qual participei, tive o prazer de conhecer a Dra. Maria de Mello, terapeuta ocupacional especialista em adequação funcional assentado. Após assistir minha palestra, em que comentei sobre as dores crônicas que sinto, ela veio conversar comigo sobre a questão postural. Ela percebeu que eu não estava bem posicionado na cadeira e marcamos uma avaliação na TechnoCare, na Av. Pedro II 3377, onde ela atende.
Aprendendo alguns exercícios para melhorar as dores na coluna
Fui em uma sexta feira pela manhã, acompanhado de minha mãe que estava me visitando. Maria nos recebeu muito bem e explicou em detalhes como é o projeto de adequação funcional que ela faz, analisando o dia a dia da pessoa, atividades que desempenha, tempo que passa na cadeira e quais as principais queixas posturais e de dores. Contei tudo para ela, da hora que acordo até a hora que vou deitar, incluindo atividades eventuais, esportes que pratico, viagens, tudo. Depois ela analisou minha posição na cadeira de rodas, de lado, de frente, parado e tocando a cadeira. Coincidentemente eu tinha uma tomografia da coluna completa feita recentemente, no qual ela identificou uma retificação da minha coluna. Aí ela pediu para eu deitar na maca e fez alguns exercícios comigo, pegando sempre meu feedback sobre como estava me sentindo. Com base em tudo ela emitiu um relatório com as recomendações para melhorar minha postura e diminuir minhas dores localizadas. O relatório incluiu ajustes na minha cadeira e sugestões para a cadeira do banco, onde trabalho todo dia. Estou seguindo as recomendações há duas semanas e já senti melhoras e diminuição das dores.
Quem quiser fazer um projeto de adequação funcional com a Maria de Mello é só entrar em contato com ela pelos telefone (31) 9428-9100 ou 3443-2200, ou ainda pelo email mariademello@technocare.net.br.
O Senado aprovou na última quarta feira, dia 10, por unanimidade, a criação da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, com a previsão de diversas garantias e direitos às pessoas nessa condição. O texto é uma espécie de marco legal das pessoas com deficiência, e trata de questões relacionadas a diversos aspectos da vida de pessoas com algum tipo de limitação física ou intelectual, como educação, saúde, trabalho, infraestrutura urbana, cultura e esporte. O projeto original é de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), mas recebeu substitutivo da deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP), que foi apoiado pelo próprio Paim. De volta ao Senado, o texto foi relatado pelo senador Romário (PSB-RJ), que ficou emocionado ao citar a filha Ivy, que tem Síndrome de Down, ao apresentar parecer favorável à aprovação do projeto. O texto segue agora para sanção da presidente Dilma Rousseff.
Mas na prática, o que muda para as pessoas com deficiência se a presidente sancionar a lei?
Entre os principais pontos da lei, destaco os seguintes:
- Prevê atendimento prioritário em órgãos públicos e dá ênfase às políticas públicas para as pessoas com deficiência. Fica estabelecido, que 3% das casas fabricadas com recursos de programas habitacionais do governo deverão ser acessíveis a pessoas com deficiência, 10% das vagas em hotéis deverão ter acessibilidade garantida, 10% das outorgas de táxi para motoristas com deficiência, 10% de vagas reservadas às pessoas com deficiência nos processos seletivos de curso de ensino superior ou profissional, 2% das vagas de estacionamento e 5% dos carros de autoescolas e locadoras adaptados para deficientes.
- Empresas com mais de 50 funcionários deverão reservar pelo menos uma vaga para deficiente. Atualmente só empresas acima de 100 funcionários precisam desta reserva.
- Criação do auxílio-inclusão, a ser pago às pessoas com deficiência moderada ou grave, que entrarem no mercado de trabalho.
- Definição de pena de reclusão de um a três anos para quem discriminar pessoas com deficiências.
- Criação do cadastro de inclusão, com a finalidade de coletar, processar, sistematizar e disseminar informações georreferenciadas que permitam a identificação e caracterização das pessoas com deficiência e as barreiras que impedem fazer valer os seus direitos.
- A reforma de todas as calçadas passa a ser obrigação do Poder Público, que deverá tornar todas as rotas acessíveis. Atualmente, essa responsabilidade é dos municípios.
- Proibição das escolas privadas de cobrarem mensalidades maiores para alunos com algum tipo de deficiência. Também foi aprovada a obrigação de o poder público incentivar e fomentar a publicação de livros acessíveis pelas editoras brasileiras.
- A nova lei também assegura que as pessoas com deficiência podem votar e ser votadas, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. O projeto prevê a possibilidade de a pessoa com deficiência ser acompanhada na cabine durante o voto e a adaptação dos locais de votação aos diversos tipos de deficiência. Também são assegurados aos portadores de deficiência a garantia de participação em programas eleitorais. No exercício de cargo público, a pessoa terá assegurado o uso de tecnologias apropriadas, quando necessário.
- O projeto também permite que pessoas com deficiência intelectual casem legalmente, além de formarem união estável.
- O projeto permite que Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) seja utilizado para a compra de órteses e próteses.
Enfim, a Lei trará muitos benefícios e novos direitos às pessoas com deficiência. Achei bastante interessante as reservas, principalmente de carros para alugar e de autoescolas e outorgas de táxi. Gostei também da reforma de calçadas pelo Poder Público. Isso pode melhorar bastante a acessibilidade nas cidades.
Resta saber se a Lei será respeitada ou se será apenas mais um argumento na briga para valer nossos direitos.
Quem acompanha o blog sabe que pude retomar um dos esportes que mais curto em 2013, o mergulho. Mergulho adaptado não demanda muita estrutura, basta fazer o curso específico e ter o acompanhamento correto na hora do mergulho. Uma luva tipo "mão de pato" é um dos poucos equipamento que pode ajudar na prática do mergulho adaptado, mas tem um detalhe que pouca gente percebe, e que poderia fazer toda a diferença: uma lancha adaptada. Já tive problemas em mergulhos, tanto para embarcar no porto quanto para voltar ao barco em alto mar, pois nunca tinha visto uma embarcação que oferecesse alguma facilidade para o cadeirante.
Não tinha visto até mês passado. Recebi um e-mail do Jonny, de Santos, apresentando uma lancha adaptada para deficientes. Ela tem uma tampa na parte da frente que se transforma em uma rampa, permitindo a uma cadeira de rodas entrar com facilidade. A ideia surgiu da indagação do Jonny sobre como seria ter os movimentos limitados e querer aproveitar um passeio de lancha ou algum esporte náutico, como o mergulho. E não existia nada neste sentido no Brasil. Agora já estão operando lanchas adaptadas em Ilha Bela, São Sebastião e Ubatuba no litoral de São Paulo.
Embarcar e desembarcar cadeirante é uma operação de guerra
E o Jonny acertou em cheio. Desde a primeira vez que entrei em um barco depois de cadeirante senti na pele a dificuldade no embarque. Foram precisos quatro homens para me colocar no barco, em uma operação tensa. Afinal, o barco não parava de balançar e sempre havia um espaço entre o barco e o cais. Com muita força conseguiram me colocar para dentro. Depois, para pular no mar, outra dificuldade. Mesmo o barco tendo um rebaixamento atrás, haviam degraus que tive que pular um a um até chegar na beirada, e então saltar para o mar. Se houvesse uma rampa, ficaria muito mais fácil.
Mergulhadores voltando ao barco com facilidade
Mas a maior dificuldade mesmo eu senti na volta. Para voltar ao barco foram três pessoas para me "içar" de volta. E já passei coisa pior, em um mergulho no naufrágio do Victory 8B em Guarapari, o barco tinha uma escada de metal em forma de espinha de peixe, e como o mar estava bravo, bati as pernas várias vezes ali, o que gerou vários hematomas e ainda dei sorte por não quebrar nenhum osso. Com uma lancha adaptada não teria este problema. A rampa entra na água e permite aos mergulhadores, com ou sem deficiência, sair e entrar no barco com facilidade.
Até mesmo mulheres de saia ou vestido podem se beneficiar da lancha adaptada
Além de funcional, a lancha é muito bonita
A lancha adaptada pode atender não só cadeirantes como também um obesos, idosos ou pessoas com dificuldade de locomoção. Espero que operadoras de mergulho e pessoas que queriam proporcionar opções de lazer náutico a todos tenham interesse neste novo tipo de embarcação. O email do Jonny é msjk@uol.com.br e o telefone (12) 99772-0082.
Contando um pouco da minha história e dos desafios que enfrentei - e enfrento até hoje
No último sábado de abril ministrei a palestra "Lesado Medular - Um desafio a cada dia", que preparei para o II Simpósio Mineiro de Reabilitação em Lesão Medular, no Hotel Royal, aqui em Belo Horizonte. O simpósio foi organizado pelas fisioterapeutas Joyce e Simone, da AquafisioBH, onde faço hidroterapia, e foi voltado para fisioterapeutas e profissionais envolvidos com reabilitação de pessoas que sofreram lesão medular. A ideia da Joyce ao me chamar foi mostrar um pouco dos desafios que uma pessoa com lesão enfrenta, do ponto de vista do próprio paciente.
Antes da lesão, muito esporte, muita festa, muita diversão
Comecei mostrando como era minha vida nos últimos meses antes da lesão, contextualizando minha situação para que entendessem como reagi após o acontecido e como enfrentei - e enfrento até hoje - os desafios do dia a dia. Falei que estava em um momento muito ativo, morava em Floripa, estava só estudando, fazendo mestrado na UFSC, tinha terminado um relacionamento há pouco tempo e fazia esportes todo dia, ia de bike pra universidade e fim de semana fazia trilha no sábado e trekking no domingo - e ainda tinha balada todo fim de semana e praia sempre que dava na telha. Meu fim de semana começava na quinta feira meio dia, que era quando acabava a última aula da semana, e acabava na terça às oito da manhã, quando começava a primeira aula. Enfim, eu estava com a vida que pedi a Deus.
Nas férias, curtindo com os amigos
Chegaram as férias do mestrado e vim para Minas ver os amigos e parentes. Encontrei a família, amigos e ex rolos e namoradas, curti muito. E uma semana antes de voltar as aulas, aconteceu o acidente. Contei como aconteceu, como fui socorrido e o doloroso processo de hospital em hospital, com a reação da família e tudo mais. E, principalmente, como foi minha reação. Sei que sou um caso muito raro, senão único, pois eu tinha tudo para me desesperar, ficar triste e até deprimido, já que minha vida era muito ativa e livre. Mas usei de minha racionalidade e conhecimento para reagir. Pensei: "já está feito o estrago, não posso fazer nada para reverter isto, então preciso comemorar que estou vivo e retomar minha vida o mais rápido possível". E assim fiz. Afinal de contas, a alternativa era muito pior. Eu poderia estar morto.
Após o acidente, no hospital, ainda de bom humor
Vieram os primeiros desafios, após a artrodese que colocou minha coluna no lugar: entender o funcionamento do corpo, os primeiros movimentos, e as coisas básicas, necessidades fisiológicas, banho, sono. E aí uma coisa que assusta muita gente: a cadeira de rodas. Ao contrário de muita gente que não aceita virar cadeirante, ficar "preso" à cadeira de rodas, eu estava doido para ir para a cadeira logo. Afinal, eu já estava de cama há uns quinze dias, por causa da cirurgia. Rodava para todo lado, mas ainda não podia sair. Mais alguns dias e convenci uma enfermeira a me levar para fora do hospital, mesmo sem poder. Foi incrível ver o céu novamente. Aí que fiquei ainda mais ansioso para sair rodando de cadeira de rodas.
Entre os primeiros desafios, as transferências, no início com a tábua do Sarah, depois sem ela
Saindo do hospital, novos desafios. Primeiro, adaptar a casa para mim. Depois, fazer fisioterapia. Já tinha começado no hospital, consegui fazer em casa graças ao programa de Home Care do meu plano de saúde. Com fisioterapia consegui melhorar o controle do corpo, ganhar força e melhorar as transferências. Aí consegui a internação no Sarah, que me trouxe muita informação sobre a vida na cadeira de rodas. Depois disso, dirigir foi o que quis fazer primeiro. Sabia que o carro iria me dar muita autonomia e liberdade. Tirei carteira adaptada, comprei carro adaptado, e aí ninguém mais me segurava. Ia sozinho para a fisioterapia em clínica, voltei ao mestrado e ia sozinho para as aulas, e para onde mais tivesse vontade. Nesse meio tempo, outros desafios surgiram e fui superando, como sair à noite, namorar, praticar esportes, viajar.
Dirigir foi uma das primeiras coisas que quis voltar a fazer
E claro, para tornar tudo possível, precisei também voltar a trabalhar. Aqui um adendo: muita gente consegue aposentar por invalidez, mesmo em condições de trabalhar, e se acomoda. Acreditem, se a pessoa tem condições, vale muito à pena voltar. E o melhor caminho é concurso público, não há dúvida. Tentei um processo seletivo, fui muito bem nele, mas não fui chamado. Descobri depois que a empresa tinha escadas na entrada. Parece que não quiseram ter o trabalho de adaptar... Percebendo isto, achei que valia a pena tentar concurso. E consegui de primeira. Isso mudou minha vida, e só cheguei onde estou, consegui muita coisa, por ter voltado a trabalhar.
Após vencer os primeiros desafios, quis me desafiar cada vez mais
E então resolvi criar novos desafios, já que consegui superar todos até aquele momento. Corri atrás de tudo que curtia fazer antes da lesão, e mais. Muito mais. Quem acompanha o blog sabe disso. Foi depois da lesão que fiz a primeira grande viagem ao exterior - já tinha ido a outros países vizinhos, mas outros continentes só fui como cadeirante. Pratiquei esportes que sempre quis depois da lesão, conheci muita gente bacana e continuei saindo, viajando e encontrando com amigos sempre que quis - ou melhor, faço isso sempre que quero. Muita gente diz que sou mais ativo que muita gente que anda, e é verdade. Isso tudo apesar do maior desafio que ainda enfrento até hoje após a lesão - a dor. Sofro de dor crônica, muito forte, constante, vinte e quatro horas por dia. E ainda assim faço de tudo.
Ah, claro, contei meu segredo para superar tudo bem e o que me dá força para sempre seguir em frente. Para fechar a palestra, preparei um vídeo que mostra um pouco de tudo que falei. Ficou muito legal, compartilhei nas redes sociais e bombou. Confiram acima! A recepção do público foi ótima, uma das pessoas falou que foi a melhor palestra, fiquei muito satisfeito.
Este ano quase não fui à Reatech. Primeiro, devido à decepção do ano passado, em que vi poucas novidades e uma feira mais automobilística do que voltada aos deficientes. Segundo, devido a uma gripe braba que peguei poucos dias antes de viajar. Já havia comprado a passagem para sexta à noite, mas na terça feira fui parar no hospital com trinta e oito e meio de febre e dores insuportáveis. Fiquei afastado do trabalho, descansando em casa, mas as dores diminuíram pouco, e a gripe não foi embora. Na sexta melhorei um pouco, e como já estou acostumado a viver com dor, resolvi encarar a viagem. Cheguei a São Paulo quase meia noite, e minha maninha já estava no aeroporto me esperando.
Lá dentro, muito carro, pouca cadeira
No sábado saí da casa da minha irmã onze e meia da manhã, mais meia hora de táxi, cheguei ao meio dia na São Paulo Expo, na Rodovia dos Imigrantes. Pelo horário, até que não estava tão lotado na porta. Entrei no pavilhão e fui para o credenciamento, já que não fiz pela internet. Peguei uma fila - nem adiantava pedir preferência, eram todos deficientes. Mesmo assim, chegando perto do fim da fila uma atendente me puxou para o guichê, onde fizeram rapidamente o cadastro e entregaram o crachá.
Entrando na feira, tive a mesma sensação do ano passado, a de estar entrando no Salão do Automóvel. Fiat de um lado, Toyota do outro, Honda ao fundo, Renault, Chevrolet, Ford e companhia limitada. A Reatech está se tornando em primeiro lugar uma briga de montadoras. Só que, no atual limite de isenção, todas estão perdendo a briga. Há cada vez menos opções de carros automáticos ou automatizados para comprarmos. Pelo menos elas estão pagando pela continuidade da feira... Essa questão do aumento do limite de isenção foi discutida na feira, mas perguntei para várias pessoas, inclusive da Abridef, e ninguém soube o resultado da reunião. Vamos esperar.
Stand sensação da Cavenaghi
Passando algumas montadoras aparece o único stand "de peso" da Reatech, o da Cavenaghi. Era o centro das atenções, com promoções de cadeiras de rodas de qualidade e novidades tecnológicas para cadeirantes. Entre as cadeiras, gostei da Jaguaribe Speed, uma monobloco leve por pouco menos de cinco mil com rodas X-core, sem as rodas sai por menos de 3,5 mil. A Ottobock Ventus também estava lá, por pouco mais de 4 mil. De novidade, havia uma almofada de ar chamada Galaxy por 1.280,00, com a proposta de se encaixar melhor no traseiro por ter gomos de alturas diferentes. Outra novidade bem interessante é o encosto italiano Tarta, que é leve e envolve bem o cadeirante. Me sentei em uma cadeira com ele e senti a diferença, abri os braços e não senti nenhum desequilíbrio, fiquei bem firme. O único defeito - assim como da maioria dos apetrechos para deficientes - é o preço: salgados 5.200,00 reais. E olha que esse é o preço na feira. Nem quero saber fora.
Almofada Galaxy e encosto Tarta
Depois de quase cair para trás com os preços, fui ao stand da Guidosimplex, montado pelo pessoal do Hélio, que veio este ano em parceria com a Jeep, e mostrou o único carro que me interessou - o Renegade. O carro está muito bonito, e a versão de entrada pode ser adquirida com isenção de IPI e ICMS, só que com câmbio manual. O carro é um pouco alto, mas não é tão difícil transferir. Ele estava equipado com o Ghost, o acelerador eletrônico que fica por trás do volante e é acionado deslizando os dedos. Chique demais. No stand havia também novas versões das adaptações Guidosimplex, como o Elite, Europa Lever e F1. Já experimentei todos, muito confiáveis e precisos.
Stand da Guidosimplex, em parceria com a Jeep
Jeep Renegade carro mais legal da feira
Quando consegui parar de babar pelo Renegade, fui ao stand da Vemex. Na feira foi lançada a handbike Bólido SX1, feita de alumínio com componentes de alto nível, e preço competitivo para uma handbike top - pouco menos de seis mil reais. Se considerar que uma importada não sai por menos de dez mil, até que está bom. A bike ficou muito bonita e bem acabada, e já está fazendo pressão nas pistas. A Vemex está patrocinando o paraciclista Josimar Sena, que tem conseguido bons resultados. Também na Vemex chamou a atenção o preço da cadeira de rodas Falco, que baixou significativamente, para 4.745,00 na feira. Outra promoção que fez sucesso foi de rodas Spinergy, mas nem vou colocar o preço, pois todas acabaram na feira mesmo - eu comprei a última!
Bólido SX1, a handbike da Vemex
Com o Evandro Bonocchi, ao lado da Falco
A novidade mais quente, na minha opinião, é o Kit Radical, uma roda com motor elétrico que se adapta à cadeira de rodas, semelhante ao FireFly, só que fabricado no Brasil e por pouco mais da metade do preço. O Kit Radical tem vários modelos com potências diferentes. O mais interessante é o Standard, de 350 Wats, que custa 4,9 mil reais. Os kits se encaixam em um suporte universal montado embaixo da cadeira de rodas, e basta virar e travar para sair acelerando. A bateria tem autonomia de 20 quilômetros, mas um dos kits pode receber duas baterias. Conversei com o projetista e ele me explicou os passos do desenvolvimento e os próximos projetos, que incluem uma adaptação para cadeira monobloco. O produto é muito bom, traz muita autonomia ao cadeirante, e nem precisa virar marombado para tocar ela na rua. Também no stand do kit conheci um protótipo de mini ergométrica com motor, permitindo ao cadeirante exercitar as pernas como se estivesse pedalando. Muito legal.
Kit Radical Standard
Kit Radical montado em uma cadeira
Outro stand que sempre curto visitar é o da Jumper, que tem cadeiras para esportes radicais. Vi lá a Infinity, uma cadeira de titânio com detalhes dourados, muito linda. E nem tão cara como a concorrente americana, a partir de nove mil reais.
Cadeira de titânio Infinity, no stand da Jumper
Mais uma vez, valeu a pena ir à feira para encontrar os amigos, alguns que eu só vejo na feira. Encontrei menos gente do que no ano passado, mas só gente boa!
Com o Gilberto Porta e a Telma, mineiros marcando presença na Reatech
Desde que descobri o Panda, primeiro piloto de parakart adaptado mineiro que se tem notícia, botei pilha nos proprietários do Kartódromo de Betim para que adaptassem um kart de aluguel para possibilitar aos deficientes correr com seus amigos - e até competir entre si pelo melhor tempo. Na época animaram com a ideia, conversaram com o seu Helon, pai do Panda e responsável pela adaptação do kart dele, que topou a parada também. Fiquei na expectativa, mas com corrida todo fim de semana no kartódromo, e considerando que o seu Helon é mecânico do Panda, que estava participando do campeonato brasileiro de parakart - do qual foi campeão - o tempo foi passando e nada de kart adaptado. Até que mês passado finalmente ficou pronto! Panda fez questão de testar para ver se a adaptação estava boa, e assim que aprovada ele entrou em contato comigo para que eu fosse lá experimentar.
Com o Humberto em frente ao pódio, que ainda não está adaptado, mas é só me colocar lá em cima!
Combinei com dois colegas de trabalho, o Humberto e o Francisco, e fomos para o Kartódromo em um sábado à tarde. Tínhamos marcado a corrida para as três da tarde, mas cheguei um pouco mais cedo, pois tinha que verificar se tudo estava certo para possibilitar minha corrida. Quem me recebeu lá foi a Thiara, administradora do Kartódromo (e corredora também). Ela me disse que o Panda deu o veredito no kart e que era só aguardar para entrar na pista com ele. O Panda não pode ir porque estava meio adoentado, mas falei com ele pouco tempo antes e me deu as instruções para operar o bichinho. Eu já andei no kart do Panda, como contei aqui, mas esta adaptação era um pouco diferente. No do Panda, o acelerador e o freio são acionados por aletas atrás do volante, mas neste o freio é uma barra por acionamento manual no chão do kart, similar àquelas das adaptações de carros de rua. O que complica um pouco a pilotagem, pois segurar o volante (que não é hidráulico, claro) com uma mão só enquanto freia em uma curva é uma tarefa difícil, como comprovei na prática depois.
Detalhe do kart adaptado, do lado direito o acelerador embaixo do volante, do esquerdo o freio ligado ao chão
Chegada a hora da corrida fizemos a inscrição e pegamos o equipamento. Além de mim e meus três colegas (o Francisco levou o irmão mais novo dele), outras três pessoas se inscreveram para completar o grid. Eu e o Humberto não fomos assistir ao briefing, uma explicação rápida sobre as regras da corrida, porque já havíamos corrido antes (eu há muito tempo, mas lembro bem das regras). Fui colocar o macacão no banheiro adaptado que fica dentro do vestiário, que infelizmente ainda não está totalmente adaptado, falta a rampa e a porta, mas fecharam o vestiário todo para mim e pude me trocar.
Já equipado e instalado no kart, com minha equipe de apoio
Fomos então para o galpão onde ficam os karts, onde finalmente conheci o adaptado. A adaptação ficou ótima, muito bem feita. A transferência para o kart ainda é um exercício, mas com pouca ajuda e em etapas, sentando na lateral e depois no assento, é tranquilo. Recomendo levar uma almofada pequena, pois o assento é de fibra sem acolchoamento, como os outros karts, mas como temos menos "material" na bunda a almofada é útil. Transferi para o kart mas descobri um problema: como minhas pernas são muito grandes (mais de metro) ficou impossível acomodar as pernas dobradas e acionar o freio, que fica próximo ao volante mas preso ao chão. A solução foi deixar as pernas esticadas, com os pés por cima do para choque do kart. O problema é que tenho muito pouca sensibilidade nos pés, e não dava para saber se estava machucando. A solução foi colocar uma outra almofada por baixo dos pés e amarrá-los bem para não ficarem batendo.
Na tomada de tempo me adaptando ao kart
Uma vez instalado, bora pra pista. Abriram a pista para o qualifying, ou tomada de tempo, onde os pilotos vão para a pista alternadamente dar voltas para formar o grid. Quem faz o menor tempo larga em primeiro, o segundo em segundo, até o fim do grid. Acostumei rapidamente com os controles, depois de umas duas voltas já parti para as voltas rápidas. Rodamos por uns dez minutos e formou-se o grid. O Humberto era o mais experiente de todos, já corre há algum tempo e ficou com a pole position. E quem ficou em segundo? O kart adaptado! Fiz o segundo melhor tempo apesar de ter ficado mais de dez anos sem correr. Fiquei muito feliz com a colocação.
Grid de largada, adrenalina a mil!
Tudo pronto, foi dada a largada. O Francisco, que largou em terceiro, pulou entre eu e o Humberto e assumiu a ponta. Logo em seguida Humberto o passou, e duas curvas depois eu fiz a ultrapassagem por dentro em uma curva que ele abriu demais. Dali em diante, o Humberto foi distanciando, enquanto segurei firme a segunda posição. Até que, por volta de dois terços da prova, o Humberto foi fechado e saiu fora da pista, ficando agarrado nos pneus. Aproveitei o vacilo e assumi a ponta! Mas senti na sequência um piloto de capacete cinza na minha cola. Errei uma curva fechada e senti o cara aproximando. Na volta seguinte, errei a mesma curva e o cara colou. Mais um errinho bobo e o cara passou. Pior foi que trouxe o Humberto na sequência, que se recuperou e me passou na última volta!
Foi dada a largada!
No fim, Luiz, um dos caras que estava no kartódromo e se inscreveu junto com a gente ficou em primeiro, Humberto em segundo, eu em terceiro e o Francisco em quarto. O irmão do Francisco ficou em sexto. Analisando meus erros (pelo vídeo que gravei de toda a corrida) percebi que eu errava justamente em uma curva para a esquerda em que eu precisava dar uma freada forte antes e até o meio, e como disse no começo segurar o volante com uma mão só não é fácil. Mas fiz uma excelente corrida, conhecendo muito pouco a pista e menos ainda o kart. Minha melhor volta foi 1"10'714, esse tempo posso usar para comparar com outros deficientes que corram no mesmo kart (exceto o Panda, que é profissa!). Foi muito divertido e pretendo voltar em breve, porém é preciso melhorar a posição do freio, de preferência no volante como o do Panda, para que eu possa acomodar as pernas dentro do kart, acabei machucando um pouco a canela. Outras pessoas de estatura normal podem não ter este problema.
Minha visão pilotando o kart adaptado
Abaixo um vídeo que fiz com os melhores momentos da corrida, ficou um pouco de lado pela posição da câmera no meu capacete, pois acabei encostando nela. Mas dá para ver tudo que falei, até o Humberto preso nos pneus aos três minutos e dez, e algumas ultrapassagens de retardatários que fiz. Gostaria de agradecer imensamente à Thiara, por ceder um chassi para ser adaptado, ao seu Helon, que fez a adaptação, e ao Panda por nos ajudar a tornar tudo possível. Agora é juntar os amigos e pé na tábua! Ou melhor, mão na aleta, no nosso caso! Rsrs