quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Vício X Deficiência

Eu e Andrezza (já sabem que é né) temos altas discussões na clínica, ela é muito boa de papo e de argumentos, tem hora que o povo acha que vai rolar um arranca-rabo. Discutimos os mais variados assuntos, e estes dias a questão foi: comparações entre deficientes físicos e viciados. Eu defendi o argumento de que é mais fácil uma pessoa vencer um vício do que um deficiente voltar a andar, depende "apenas" de força de vontade e disciplina. E que um deficiente pode ter a força de vontade que for que somente isso não põe ele de pé. Se o corpo não ajudar, se a medula não responder, nada feito.
Apesar de ser meio óbvio, foi difícil explicar, ela e a Duda (atual estagiária) afirmaram que vício é doença, e mesmo que a pessoa queira não consegue parar, algumas pessoas mesmo depois de internadas em clínica voltam para o vício.
E Andrezza dizia que eu tenho uma vida ativa, que um viciado tem que ficar em casa, não vai a alguns lugares, luta todo dia contra o vício. E que a maior parte acaba morrendo, pelo vício, por traficante ou polícia. Aí estávamos falando de coisas diferentes, concordo com ela que a vida é mais "normal" para um deficiente, mais fácil se adaptar e conviver com a deficiência, mas sustentei meu argumento que realmente é bem mais possível vencer um vício.
No fim das contas, dos males o menor, prefiro ser quebrado que viciado. Ironicamente, o único vício que eu tinha me deixou paraplégico: adrenalina. Se bobear, mata mais que cocaína.

Cheguei dando trabalho

Nesta semana comecei a trabalhar na Gasmig, e já cheguei dando trabalho. Apesar de ser empresa de economia mista e ser obrigada a reservar vagas para deficientes em vários cargos, não havia estrutura para receber um cadeirante. Provavelmente porque sou o primeiro.
Por isso ganhei uma semana em casa enquanto não acabam as obras na empresa. Em casa mas com um pen drive de 2GB lotado de material para eu estudar. E pra entender melhor o serviço. Estou achando muito interessante, curto muito essa área de planejamento estratégico.
Se entendi bem, além do banheiro adaptado, a estrutura do escritório também deve sofrer alterações, talvez tamanho de portas ou corredores. Isso mostra o empenho da empresa em atender às necessidades dos funcionários. Em empresa privada ia dar briga pra resolver uma coisa dessas.
Na apresentação que assisti nos últimos dois dias fiquei muito impressionado com a organização e estrutura, vai ser muito bom pra mim profissionalmente, pois nunca trabalhei em empresa deste porte. E pessoalmente, pois um desafio destes deixa qualquer um animado.
Infelizmente não vão instalar uma banheira de hidromassagem adaptada ainda, mas eu chego lá...

sábado, 9 de janeiro de 2010

Test Drive no Nissan Livina


Mais uma concessionária de Belo Horizonte - desta vez da marca Nissan (a Motorsan na Av. Pedro II, 1520) - disponibiliza um veículo adaptado para deficientes físicos fazerem test drive: um Livina 1.8 SL automático. A adaptação é da Guidosimplex e foi feita no Hélio Adaptações, é um sistema de barra similar ao que tenho no meu carro, mas esta é diferente pela alavanca, que é vertical, permite mais firmeza e descansa mais o braço. Facilita também para dar seta, já que fica mais próxima à alavanca. Achei a adaptação muito firme e precisa, responde rapidamente aos comandos.

O carro é um monovolume, eu já o havia conhecido na concessionária Misaki, conforme contei neste post. Também pude conhecê-lo melhor na bienal do automóvel de Minas Gerais, que aconteceu em dezembro. Gostei muito da versão X-Gear, que vem com aparatos de off-road, no estio Adventure, e dá um ar mais jovial ao carro.
Como eu já avaliei o carro no post referido acima, vou contar sobre a experiência ao volante. Assim como na Honda, um consultor de vendas da concessionária, o Leonardo Ciolette, veio trazer o carro na minha residência, e chegou na hora marcada.

Desta vez achei mais fácil entrar e sair do carro, não sei se foi por causa da cadeira mais curta ou de mais prática. O espaço interno é impressionante. Passei as duas pernas por baixo da barra da adaptação com facilidade. Neste momento o Leonardo observou um detalhe importante: as adaptações geralmente tem um parafuso grande em baixo e suas arestas podem causar machucados nas pernas dos mais altos, como eu. Deveria haver uma proteção emborrachada para evitar acidentes. No meu carro já me arranhei várias vezes.
O motor é o 1.8 com 125cv, bem forte e adequado ao tamanho do carro. O câmbio automático infelizmente não é o CVT da Nissan, presente no Sentra, e sim de quatro marchas. Mas responde muito bem, não fica trocando as marchas excessivamente e reduz nos momentos apropriados. E faz valer a potência do motor.
Apesar de ser monovolume, como uma van, ele tem só 4,18m, se sai muito bem no trânsito e até em manobras. E é muito gostoso de dirigir, tem direção extremamente leve (elétrica) e bastante estabilidade. Não cheguei a ir para a estrada, mas o carro é bem confortável, ideal para viagens.
A versão avaliada foi a 1.8 SL Flex, que já vem com Air Bag duplo e freios ABS, além de som com MP3, roda de liga leve de 15", ar condicionado, revestimento do volante em couro e outros mimos (mais informações no site da Nissan). Porém senti falta do computador de bordo, ausente até mesmo na versão especial X-Gear. Acho importante para acompanhar dados sobre o veículo, como consumo e autonomia.

O grande diferencial para cadeirantes é o porta-malas, com 449 litros, coube minha cadeira inteira sem desmontar, só com o encosto rebatido. E não atrapalha a visibilidade, já que ela fica no nível do banco traseiro. E ainda sobra espaço embaixo da cadeira e ao lado.
Mas o atrativo principal mesmo é o preço: o modelo SL tem preço sugerido de 56.890,00 e cai para aproximadamente 45.000,00 com as isenções. Sem dúvida um modelo que oferece bom nível de custo/benefício.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Problema do freio resolvido

Como relatei neste post, uma decepção que tive com a M3 foi o freio, muito alto e rente ao corpo, ele destravava em quase todas as transferências. Quando não destravava eu caia em cima e ele virava para baixo, comprometendo a estrutura, tanto que em dois meses de uso já precisei apertá-los três vezes.
Logo que percebi o problema mandei e-mails para o dono da loja onde comprei a cadeira e pra Ortobrás. O pessoal da Ortobrás se mostrou solícito, pediram uma foto do freio e o número de série da cadeira, e prometeram tomar providências. Mas a única providência que efetivamente tomaram foi "encaminhamos para o pessoal do desenvolvimento e engenharia".
Mas eis que hoje o Alexis Muñoz, que havia me contactado ontem apresentando sua empresa, a Tecnologia Assistiva (que trabalha com produtos para deficientes), me deu a solução definitiva. Ele foi tão atencioso que me mandou uma sequência de fotos e ainda me ligou explicando que o freio já vem com um sistema para evitar acidentes e facilitar a transferência, é só puxá-lo para cima e empurrá-lo pra trás, conforme podem ver nas fotos:



Simples, não? E funciona mesmo. A "solução" que eu tinha conseguido antes foi "pular" da cadeira quando ia transferir, mas sempre caía torto e minhas pernas ficavam na cadeira, torcendo tudo e correndo o risco de um tombo mais sério. Agora, finalmente, está resolvido.
Mas o que mais me intriga é o pessoal da Ortobrás não ter conhecimento disto, mesmo após reclamação e publicação no blog, nada fizeram. Deixo aqui meus agradecimentos ao Alexis, que foi muito atencioso e educado, qualidades difíceis de encontrar por aí.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Licença poética


Acredito que todo mundo que acessa o blog deve estar acompanhando a novela Viver a Vida, afinal fala de nós, cadeirantes. Repararam na cadeira nova da Luciana? Não estou fazendo propaganda, mas é uma M3. O que me intriga é o seguinte: tetra consegue se equilibrar bem numa cadeira com encosto tão baixo? E sem apoio de braço? Eu mesmo demorei um pouco a me acostumar, e no início da lesão sei que seria inviável, pois eu não tinha movimentos no quadril e abdomen, não conseguia nem sentar na cama.
Mas o fato é que apontar defeitos na novela é relativo, pois em matéria de lesão medular cada caso é um caso e nada é impossível, e há ainda que se considerar a "licença poética", exageros e omissões que são cometidas em nome da arte. E na verdade acho que a Alinne Moraes está trabalhando muito bem, está reproduzindo com grande fidelidade os movimentos e jeito de um tetraplégico. A não ser algumas vezes em que ela mantém as costas totalmente retas, como no dia em que ela mudou de cadeira. Mas foi só um detalhe.
No capítulo de hoje também achei cedo demais ela conseguir tocar a cadeira sozinha. E sem os pinos que são recomendados para auxiliar os tetras. Mais uma vez acho que o autor usou licença poética, pois se a novela fosse mesmo acompanhar fielmente os avanços de lesados medulares, iria durar uns três anos. Mas temos mesmo é que ser gratos ao autor por abordar um tema tão importante e atual, que nos dá visibilidade e ajuda-nos a exigir cada vez mais nossos direitos. Só espero que não aconteça mais um "milagre" e ela se levante da cadeira feliz e saltitante...

Rodando na grama

Passei o reveillon em um clube campestre aqui em BH (PIC) e descobri o quanto é difícil rodar na grama com a M3. Na hora dos fogos na lagoa da Pampulha procurei um lugar mais estratégico para assistir e o melhor lugar era no limite do clube, depois de um longo gramado. Achei que seria fácil chegar lá, mas empaquei no primeiro meio metro na grama. As rodas dianteiras "soft roll" são muito boas pra rodar em piso liso e até em lugares irregulares, mas na grama ela trava que é uma beleza. Por ser mais larga que as convencionais, o atrito com a grama é maior.
A solução que encontrei foi empinar a cadeira, mas sozinho é complicado pois ela vira pra trás facilmente, devido ao centro de gravidade ser mais pra frente, e eu não queria entrar no ano novo mais quebrado que já sou. Aí o jeito foi apelar pra namorada, ela me levou pela grama empinando. Desta forma foi fácil, já que as rodas traseiras são mais finas que as comuns. Conseguimos então uma boa localização para ver os belos fogos no reveillon da Pampulha.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Um bom ano a todos

A grande maioria das pessoas chega no reveillon e faz um balanço do que fez de certo e de errado no ano e em seguida faz projetos e promessas para o ano que está chegando. Não que eu não seja assim, mas meu processo é um pouco diferente. Como foi meu ano, não muda. Sempre digo que foi fantástico, estupendo, fenomenal. E nunca é mentira. Até no ano do acidente? Claro. Sobrevivi a um acidente cujo percentual de morte deve passar de 80%. A 140 por hora voar de uma moto e bater de cabeça no chão não costuma deixar muitos sobreviventes. Naquele ano também realizei alguns sonhos, passei no mestrado e fui morar na praia, e justo em Floripa. Ah, Floripa... E fiz novas amizades, boas viagens e tive momentos muito felizes.
Mas a real diferença é a forma como vejo as coisas. Sou dotado de um otimismo e bom humor fora do normal. Não é questão de se acomodar e achar que tudo está bom. Tudo pode sempre melhorar, e temos que correr atrás disso sempre. Ralar, trabalhar, mas sem deixar de se divertir, viajar, encontrar amigos, sair, viver. E sempre acho que de tudo é possível tirar um lado bom. Nem que seja uma lição: nunca mais ando de moto a 140 por hora numa universidade que tem fazendas...
Todo reveillon as pessoas desejam que seja um ano maravilhoso, com muito sucesso, dinheiro, amor e que todos os sonhos se realizem. Todos? Meio difícil em um só ano, heim... Por isso desejo sempre um bom ano. Num bom ano damos passos importantes, fazemos as coisas certas, corremos atrás de nossos sonhos e temos muitos momentos felizes. Também há os problemas, algumas brigas e decepções, ninguém está imune a isso. Por isso desejar um bom ano é uma coisa mais realista, mais pé no chão (cadeirante falando pé no chão é irônico heim...). Se for mais do que bom, ótimo. Mas pra muita gente ter um ano bom já é uma coisa fantástica.
Então é isso que desejo a todos: um bom ano. Um ano em que façam as coisas certas, corram atrás de seus sonhos, busquem a felicidade em tudo que fizerem e tenham muitos momentos felizes. E que no fim do ano possam dar aquele sorriso com a sensação do dever cumprido.

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